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Os 7 de Chicago: os absurdos de uma história injusta

THE TRIAL OF THE CHICAGO 7 (L-R) CAITLIN FITZGERALD as DAPHNE O’CONNOR, ALAN METOSKIE as ALLEN GINSBURG, ALEX SHARP as RENNIE DAVIS, JEREMY STRONG as JERRY RUBIN, JOHN CARROLL LYNCH as DAVID DELLINGER, SASHA BARON COHEN as ABBEY HOFFMAN, NOAH ROBBINS as LEE WEINER. NICO TAVERNISE/NETFLIX © 2020.

Tradicionalmente sou um dos primeiros a criticar a Netflix quando ela aposta em filmes de catálogo e que pouco acrescentam em nossas vidas. Inclusive já estou calejado e passo em branco a maioria deles. Mas preciso reconhecer que ela pinça grandes obras e as espalha durante o ano, como forma de enriquecer sua importante produção original. E assim como em Destacamento Blood (Spike Lee), o serviço de streaming acerta em cheio no projeto Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7), liderado pelo competente Aaron Sorkin (A Grande Jogada) e que provavelmente será lembrado nas principais premiações de Hollywood em 2021. É o típico filme de tribunal que reúne os atributos que mais nos prendem na cadeira. Ainda mais quando se trata de recontar uma história real e que levou tanto tempo para se desenrolar. Política, injustiças, revolução cultural e social se cruzam em uma batalha ferrenha, aqui incorporada por um excelente elenco e ritmo. Mesmo com duas horas de duração, Os 7 de Chicago flui e acerta o seu tom de crítica.

Na história, vemos um protesto que era para ser pacífico, durante a Convenção Nacional Democrata de 1968 nos Estados Unidos, virar um verdadeiro caos de violência entre manifestantes e polícia, que, não por acaso, usou de força exagerada. Com isso, sete organizadores são incriminados justamente por incitar a violência da qual foram vítimas. Cada um deles tem um perfil diferente e pertencia a um tipo de organização, formando um grupo bem heterogêneo. Um grande acerto de Sorkin, que também escreveu o roteiro, passa pela escolha do elenco. Todos os atores estão muito bem em suas mais variadas camadas. O foco nas “vítimas” e a esperta divisão de telas entre elas e seus ideais é o suficiente para desde cedo ficarmos preocupados com o julgamento que está por vir. Entre eles, estão Bobby Seale (interpretado pelo excelente Yhia Abdul-Mateen II (Aquaman, Watchmen) do movimento dos Panteras Negras, Abbie Hofman, vivido por Sacha Baron Cohen (sim, o Borat), David Dellinger (John Carroll Lynch), Jerry Rubin (Jeremy Strong) e Tom Hayden (Eddie Redmayne). 

Aaron Sorkin e Sacha Baron Cohen
Aaron Sorkin e Sacha Baron Cohen acertam o tom em Os 7 de Chicago. Foto de Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Rapidamente a história nos é apresentada. E tão logo isso acontece já estamos no tribunal naquele clima de pessimismo e com a raiva pelo juiz Julius Hoffmann, excelentemente vivido por Frank Langella (será que vem indicação ao Oscar?), aumentando a cada minuto. Ele conduz de forma quase que política o julgamento dos manifestantes, além de mostrar sérias pitadas de racismo e uma veia ditatorial digna de deixar muitos vilões de blockbusters no chinelo. Tudo isso somado a um pano de fundo ainda mais efervescente, numa época em que o Governo norte-americano estava recrutando cada vez mais jovens para a guerra contra o Vietnã. E como sabemos, esses jovens voltavam dentro de caixas de madeira.

Frank Langella é Julius Hoffman e já merece figurar na temporada de prêmios do cinema. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

Com flashbacks do dia do massacre, o filme de Sorkins vai aos poucos clareando o que aconteceu na noite que resultou em dezenas de mortes. O quebra-cabeças vai se fechando em meio às organizações da defesa, que além de sofrer ataques do próprio juiz Hoffman, também passa a ser ameaçada (por parte da sociedade) e precisa lidar com manobras sujas para que o desfecho de toda a história prejudique ainda mais o julgamento. Nesse aspecto, todos os atores envolvidos entregam muito em tela. Compramos suas visões e entendemos o quanto eles erraram e o quanto eles acertaram. Apenas quem não percebe isso é realmente o juiz interpretado por Frank Langella. Destaque para a cena em que ele basicamente manda amordaçar o ativista Bobby Seale, que nunca é ouvido por suas apelações. Um soco no estômago e uma alegoria que serve para o que vemos até hoje em casos de racismo e extremismo contra minorias.

Yahya Abdul-Mateen II (vencedor do Emmy por Watchmen) é Bobby Seale e tem uma das cenas mais marcantes do filme. Niko Tavernise/NETFLIX © 2020

A linha do tempo dos acontecimentos leva cerca de sete anos. Nesse período vemos os Estados Unidos perderem o controle sobre a guerra no Vietnã, chamando cada vez mais jovens para compor suas tropas. Os fatos geram uma efervescência nacional, passando por movimentos como o dos Panteras Negras, a morte de Martin Luther King e a eleição de Richard Nixon e, claro, o início e o fim do julgamento dos sete manifestantes. Não é pouca coisa.

São obras como Os 7 de Chicago que mantém a Netflix como principal estúdio em atividade (principalmente em época de pandemia). Certamente ouviremos falar bastante dessa obra na época das grandes premiações. Pode não ser um filme perfeito, mas é o filme de tribunal que nos cativa e nos mostra que nem sempre as instituições funcionam de forma tão independente. E a política está em todos os ambientes. Para bem ou para mal.

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