Kujira no Kora | Crítica
Um povo pacífico, que aceitou o seu destino de permanecer recluso, sem contato nenhum com outras civilizações. Agora pergunte-se o que aconteceria se essas pessoas fossem obrigadas a sair dessa “zona de conforto”. Kujira no Kora wa Sajou ni Utau (Filhos das Baleias) levanta essa e outras questões, como o impacto que a guerra traz nos indivíduos, principalmente os que estão em seu “habitat natural” e não compreendem como outros semelhantes possam adentrar em suas terras e promover o caos. Fala também da importância dos sentimentos e de como eles podem ajudar, ou até mesmo atrapalhar, em situações tanto simples como complexas. Além claro, de dar importância para as memórias de um povo, que muitas vezes é tão rica, mas se perde no tempo.
Kujira no Kora é baseado no mangá de Abi Umeda, e conta até o momento com nove volumes. O anime, que estreou no Japão em 2017, e no dia 13 de março de 2018 mundialmente na Netflix, aborda a história de um povo que reside em uma mistura de barco com uma ilha (chamado de Baleia de Lama), que está à deriva em um mar de areia (isso mesmo que você acabou de ler). Temos castas, dividindo principalmente os Marcados dos Não-Marcados. A diferença entre os dois é que o primeiro consegue usar a Tímia (equivalente ao Ki, Cosmo, Chacra), enquanto que o segundo não possui esse poder, porém, vivem mais do que os Marcados, que morrem em média aos 30 anos. Esse fato faz com que os Não-Marcados ocupem os cargos de maior relevância dentro do local. Tudo muda quando um outro barco/ilha é avistado e os habitantes da Baleia de Lama resolvem fazer o reconhecimento do local, porém, com a instrução de não trazer nada de lá. Eles acabam desrespeitando a ordem e trazem uma garota de lá (e um animalzinho também, que mais parece um pokémon), que aparentemente travou uma batalha campal e é a única sobrevivente.
Essa garota muda a vida de todos, uma vez que seu povo invade a Baleia de Lama e provoca uma grande desordem, matando inúmeras pessoas em uma guerra onde um povo fica sem saber o que está acontecendo. Isso, aliás é muito bem retratado. Uma invasão inesperada em um lugar onde as pessoas não estão acostumadas com esse contexto de batalha. É uma experiência que demora a cair a ficha. Muitos morrem sem ao menos reagir, outros lutam, mas não tem a dimensão do problema e até mesmo as crianças são obrigadas a pegar em armas. Kujira no Kora não te prepara para as mortes da maioria dos personagens, bem como é a vida. O tema da perda é colocado logo no primeiro episódio, que mostra a tradição que o povo dali possui, de não chorar pelos seus entes queridos, que acabam com os seus caixões indo parar no mar de areia. Até o final do anime, você vai ver que essa tradição mudará.

Por ter, quase que ininterruptamente, uma trilha sonora melancólica, até mesmo em momentos de diálogo, o desenrolar da história pode se arrastar um pouco. E isso acaba pesando até mesmo na forma de consumir os 12 episódios da primeira temporada. Já que tocamos no assunto temporada, os três últimos episódios parecem compor o início de uma segunda, dando uma cara de novo começo de história. Os cenários, misturando temas marítimos com a aridez do deserto, com uma textura bem diferente da coloração dos personagens, por exemplo, dá um bom contraste. Os momentos em que a Tímia é utilizada, cada uma com uma cor e um símbolo diferentes, também são bem legais de ver.
No quesito personagens, temos alguns clichês. O cara marrento, sisudo, mas que sempre salva o dia, e no fundo tem um bom coração; o explosivo, que sempre briga com alguém, mas acaba sendo o alívio cômico; a garota misteriosa, com um passado a esconder e que vai se revelando ser fundamental para a trama; a mulher espalhafatosa que gosta do protagonista, são alguns exemplos. Falando em protagonista, ele é um caso à parte, já que não faz o tipo “O Escolhido”, nem o homem com um poder oculto, mas que é liberado no maior momento de perigo. Não, Chakuro é um garoto sensível, com uma Tímia que quase não é utilizada no decorrer da série, e logo de cara se mostra o chorão do anime. Porém, ele é o protagonista porque a história é contada a partir dele, uma vez que o seu trabalho na Baleia de Lama é registrar todos os fatos que acontecem, de maneira escrita. Ele é um dos poucos que sabe ler e escrever.
Kujira no Kora pode te fazer refletir sobre várias coisas, tudo depende do jeito como você vai absorver a história. Por vezes mais contemplativo, ele pode não agradar àqueles que estão acostumados com animes com mais ritmo e sem grandes aprofundamentos.
