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Feito Pipa olha com sensibilidade e ternura para a infância e a velhice

15/08/2026 - 54º Festival de Cinema de Gramado - Mostra Competitiva de Longas-Metragens Brasileiros Sessão 1 Equipe do longa-metragem "Feito Pipa" | Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

Quando assisti “Pacarrete“, em 2019, fiquei encantada com o talento e a sensibilidade de Allan Deberton. O cineasta cearense tem uma habilidade ímpar para contar histórias de pessoas que não costumam ganhar os holofotes. Em “Feito Pipa”, ele se reafirma como um talento do cinema nacional que precisa ter destaque.

A história de Gugu, vivido pelo excelente ator mirim Yuri Gomes é comovente e genuinamente brasileira. O menino vive no interior do Ceará com a avó, Dilma, interpretada por Teca Pereira. E são nas cenas dos dois que o filme ganha um tom agridoce que se transforma em uma linha condutora da narrativa. O amor e a dedicação da avó ganha espaço para a preocupação. Aos poucos, ela vai esquecendo pequenas coisas e isso vai impactando a rotina dos dois.

Gugu é um menino criativo, que gosta de se maquiar, dançar e colar figurinhas de estrela pelo corpo. Na escola, enfrenta alguns comentários, mas ele mesmo diz que “não liga”. Seu maior embate é com o pai, que Lázaro Ramos faz brilhantemente. Não é um homem mau, mas não sabe lidar com a vontade do filho de se expressar.

E são nessas nuances que o filme por André Araújo vai ganhar corpo. Um menino queer que gosta de jogar futebol, filho de um pai caminhoneiro que nem acompanha as partidas. Uma avó que vai, pouco a pouco, deixando de ser quem ela é e mudando a rotina de todos.

O elenco está afinadíssimo, inclusive o infantil, que costuma ser um desafio maior. É impressionante como cada um dos atores está entregue a sua personagem, dando unidade ao longa.

Outro ponto que precisa ser destacado e que é uma marca do cinema de Allan Deberton são as cores. Assim como Pacarrete tinha uma paleta muito bem definida, Feito Pipa vibra nas mesmas cores, que deixam o longa plasticamente muito bonito.

Quando as luzes do Palácio dos Festivais se acenderam, se revelou um público em lágrimas. “Feito Pipa” tem uma história delicada e um olhar muito sensível tanto para a infância queer, bem como para o envelhecimento. É com ternura que o diretor oferece mais esse grande filme para o cinema brasileiro.

Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto

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