De Peito Aberto: informação a serviço das mães, ou melhor… da sociedade | Crítica
Você deve estar se perguntando: O que uma crítica sobre um documentário de aleitamento materno faz em um site como o da Vigília Nerd? Mais adiante, o que um homem, no auto de seus 36 anos, quer abordar um tema tão caro para as mulheres? Pois bem, não sou médico, nutricionista, tão pouco tenho conhecimentos acadêmicos sobre qualquer área da saúde. Mas vou usar o fato de ter me tornado pai há poucos dias e dividir a vida com a Débora e o pequeno Francisco. Alguns ainda dirão que mesmo assim este não é meu lugar de fala. Acho justo. Até concordo. Então apenas vou me fazer valer meu direito de opinião e de quebra, do momento de grande aprendizado que venho vivendo desde o dia em que fiquei sabendo que seria pai. E a maior responsável por isso, é sim, minha esposa. E por último, por minha humilde experiência de jornalista e crítico de cinema. O documentário “De Peito Aberto” foi financiado por 700 mulheres… e 30 homens.
“De Peito Aberto”, é um filme de Graziela Mantoanelli, e estreia em várias capitais do Brasil no dia 3 de outubro. E como se imagina, ele aborda um tema que vem sendo tratado com certo desprezo, e até mesmo desconhecimento, pela grande maioria. E aqui não é opinião, é uma informação importante apresentada logo ao início da obra: no Brasil cada criança nascida fica em média apenas 54 dias sendo amamentada, enquanto o período mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 180 dias. O aleitamento materno é a ação isolada mais eficaz no combate à mortalidade infantil.

O longa, com pouco mais de uma hora de duração, não se apega a elencar os benefícios nutritivos do leite materno, mas muito mais em todo o convívio social e as convenções que levam as mães a não apostarem no produto natural mais importante para os bebês. Ele ainda reforça o protagonismo das mães e o turbilhão de emoções e desafios no período em que uma nova vida chega ao mundo. São informações e relatos valiosos.
Além de contar com renomados especialistas da causa, entre eles a terapeuta argentina especializada em maternidade Laura Gutman, o pediatra espanhol Carlos González, o pediatra Moisés Chenciski, e o psicólogo e terapeuta de família Alexandre Coimbra Amaral, o documentário costura a experiência de seis mulheres (ou famílias) de diferentes realidades sociais que expõe suas vivências. Entre erros e acertos, alguns temas clássicos como “seu leite não é forte”, “seu leite não é suficiente”, são desmistificados. Experiência própria: o pós-parto é a época em que surgem palpiteiros de todos os lados com as mais diversas informações para a mãe (e para o pai também).

De Peito Aberto reúne ainda mais de cinco anos de pesquisa e o resumo de mais de 200 horas de material bruto. Questões sociais e econômicas também entram na roda. O lobby de grandes marcas junto a pediatras historicamente fizeram que as indicações “profissionais” saíssem da premissa básica em que o leite materno é simplesmente o alimento mais completo e indicado para os bebês. Com o tempo, o fato dele não vir em bonitas embalagens, caixas ou latinhas, acabou por muitas vezes criminalizando as novas mães. A cultura brasileira da época da escravidão, onde as grandes damas lançavam seus filhos para serem alimentados pelas escravas também é abordada, relembrando uma página triste da nossa história, e que também ajudou a criar marcas que até hoje influenciam a sociedade. Aliás, essa é uma importante mensagem deste documentário: a cultura do aleitamento materno envolve não só a mãe, mas toda a sociedade. Um site especial da produção pode ajudar aqueles que estiverem mais atentos ao assunto: https://www.depeitoaberto.net/.
Acima de tudo, De Peito Aberto é uma grande contribuição para o tema do Aleitamento Materno. Você pode até não se identificar, mas vai perceber que mesmo longe de um processo de paternidade ou maternidade, esta é uma questão de todos. Uma criança não se cria só com uma mãe, ou com um pai e uma mãe. Uma criança se cria com todo nosso sistema social. E se você souber como tratar, ou agir com uma mulher com uma criança no colo, é esse sistema que sai ganhando.
