Ícone do site Vigília Nerd

Polícia Federal: A lei é para todos | Crítica

Filme dirigido por Marcelo Antunez estreia nos cinemas dia 7 de setembro.

Crítica por Maytê Ramos Pires

Aqui temos mais um filme que se resume pela mais pura panfletagem. Pretende ser apartidário, mas mostra a história atual do Brasil sob um viés questionável e com visíveis falácias e enquadramentos equivocados dos fatos. É uma pena que essa história seja contada agora e com tal olhar, pois apenas com distanciamento histórico pode-se tentar entender o que compõe determinado cenário e quem financia determinados atos e organizações. Aliás, não sabemos nem quem financiou esse filme, que teve orçamento de 15 milhões vindos não se sabe exatamente de onde… Sem expor as cartas, como é possível dar credibilidade à construção de verdade que nos é apresentada? Porque tudo é construto; há mil verdades prontas para serem embasadas em vários argumentos a depender do ponto que escolhemos iluminar, mas é preciso que o espectador problematize tais componentes para escolher acreditar ou não e decidir o que entende como real. Este que é o nome de nossa moeda, que, por sua vez, teve a “história” recentemente contada sob o mesmo viés que encontramos no Polícia Federal, mas não tão bem realizado, como é possível conferir na nossa crítica.

Enfim, passada a primeira impressão de desgosto por novamente ver a história política do país perspectivada de maneira irresponsável, vamos à sinopse: o filme trata da Operação Lava-Jato desde o seu início, lá em 2013, com a apreensão de uma carga de cocaína, passando pelas relações dos doleiros com as empreiteiras e executivos da Petrobras, até chegar à condução coercitiva de Lula (Ary Fontoura) seguida pela divulgação na grande mídia das escutas coletadas durante o processo no celular que era utilizado pelo ex-Presidente. Curioso que nessa narrativa o andamento que leva a Lula passa pela exposição de partidos políticos ligados a parlamentares que estariam envolvidos no esquema da Petrobras e os partidos citados são apenas PT (muito enfaticamente, repetidas vezes), PMDB e PP, deixando de lado PSDB – algo a se pensar, principalmente na relação do partido com uma figura crucial para esta investigação, Sergio Moro. O juiz Moro (Marcelo Serrado), aliás, aparece como coadjuvante da história desenrolada pelos policiais, tendo seu nome citado apenas uma vez, e na TV, visto que quando ele aparece em cena geralmente é tratado apenas como “o juiz”. Inclusive pensei que seu nome não seria citado e apareceria somente nos já esperados excertos expostos ao longo dos créditos nos quais pudemos ver fragmentos dos depoimentos reais que foram retrabalhados no filme, mas me enganei, há uma referência quase que escondida.

Esse olhar sobre o contexto em que estamos vivendo atualmente funcionaria muito melhor se fosse realizado em forma de documentário, visto que a formulação da trama sugere que os fatos dados podem ser interpretados apenas daquele modo, sendo natural a documentários factuais, mas que soam errado quando envolvemos personagens fictícios e se constroem “mocinhos” e “bandidos”. Destaco que pode gerar confusão nos espectadores o fato dos personagens principais serem todos fictícios, principalmente a obra sendo tratada a todo momento como o retrato fiel dos acontecimentos. Ademais, há uma tentativa de aproximação do público quando se criam conflitos em dois delegados: um que se questiona sobre qual mudança se concretizará a partir da operação; e um que debate em família sobre suas escolhas passadas e que não confia mais em partidos, discurso recorrente nas manifestações verde-amarelas pelo país. É preciso destacar também que os recursos narrativos são bem empregados, trabalhando inicialmente com uma espécie de flashback, onde parte-se da ação, usa-se o flashback para retomar o que levou a ela e, então, segue-se no andamento dos fatos. Antes disso, ainda, se trabalha com noções elaboradas da origem do “mal da corrupção”, remontando em forma de animação rabiscada a chegada dos portugueses e o desenvolvimento das relações econômico-sociais que atuam como predecessoras do que hoje conhecemos como roubo, desvio de dinheiro, pagamento de propina, etc.

Todavia, se nos propusermos ao difícil exercício de desconsiderar que o enredo é baseado em fatos reais e se propõe como um retrato histórico da atualidade – retrato histórico já se pressupõe que deveria ser de algo há muito vivido, escrito na história, mas também deixemos isso de lado momentaneamente -, podemos perceber um grande mérito técnico do filme em questão. Sua construção narrativa é ágil tal como um seriado policial daqueles aos quais estamos acostumados pela ficção seriada da TV. Os movimentos de câmera correspondem àquele estilo de seriados, quando na perseguição dos carros temos a câmera tremendo junto, o movimento sentido e a tensão ali criada. As cores são muito bem trabalhadas e ambientadas com uma luz muito forte e ao mesmo tempo integrada. Ao passo que o estouro da luz se desvanece, toma lugar o foco em determinado plano com desfocado ao redor, um jogo de profundidade bem desenvolvido e que não deixa o filme cansativo, mesmo sendo um enredo que poderia causar isso porque trabalha com muitos números e dados nessa corridas por concretizar as prisões e avançar na operação. Tendo isso em mente, acredito que esse filme funcionará perfeitamente bem em mercados estrangeiros, ele se torna problemático para brasileiros porque quer contar das relações político-sociais atuais e nisso passa bem longe do aceitável.

Uma má notícia nesse sentido é que esse estilo de seriado policial de TV foi planejado e o filme desponta como um longo primeiro capítulo de uma série, sendo o primeiro mas já indicando na cena pós-créditos que haverá continuação e em breve teremos um Polícia Federal: A Lei é para todos 2. O que esperar? Novamente, mais do mesmo, infelizmente. Vale salientar que o filme contou com o apoio da Polícia Federal e teve cenas filmadas nas sedes da PF em Curitiba e no Rio de Janeiro, o que fala da verdade oficial que se vende – isso estará nos livros daqui a alguns anos, assim como vemos muitas mentiras oficialmente tidas como verdades no que se ensina para nossas crianças no colégio. Para finalizar, é bom ponderar que a estreia desse filme é na semana que vem, exatamente no Dia da Independência, data mais do que sugestiva para um filme que trabalha com a ideia de que a corrupção é o mal do Brasil desde que os portugueses pintaram por essas bandas, do lado de cá do oceano. O que está nas entrelinhas desse lançamento? Sugiro ver com olhar crítico e não tomar como certezas o que se apresenta em tela – a internet está aí pra isso, não custa pesquisar os outros lados dessa história.

Sair da versão mobile