“Leite em Pó”, de Carlos Segundo, é um filme que precisa ser digerido. O quarto longa em competição no 54º Festival de Cinema de Gramado deu ao público uma sensação de estranheza. Mas uma inquietação positiva.
Na trama, o músico paulista Vicente, vivido por Vinícius de Oliveira, tem uma vida frustrada. Com quarenta anos, sonhando em ser cantor e morando com a avó, o homem se vê diante de um luto que não sabe como digerir. Para tentar um recomeço, ele entra em um ramo de vendas inusitado e sua vida começa a ser atravessada por diversas histórias e atravessando a cidade.
Enquanto tenta lidar com todos os acontecimentos recentes, ele adentra na vida dos avós e fica ainda mais chocado com toda vida pregressa da família, que ele desconhecia.
A vida de Vic, como gosta de se apresentar na noite, poderia ser a de qualquer quarentão frustrado que não sabe o momento correto de talvez de abrir mão de seus sonhos ou recalcular a rota. Ele só faz isso porque é forçado, já que, por muito tempo, sua avó o sustentou e fazia até mesmo seu copo de leite para quando ele chegasse do trabalho.
Com um roteiro irregular, o longa desperdiça potencial por ser tão inconstante. Com algumas sacadas interessantes, os diálogos, em sua maioria são bem construídos e nos levam para a realidade daquelas personagens que vivem em Natal, no Rio Grande do Norte. O passado não importa mais do que já é dito e a história da saída da adolescência tardia se torna uma tragédia com nuances de comédia.

Ao amadurecer forçadamente, Vicente representa uma geração de homens que estão insatisfeitos, mas acomodados. Seu talento para a música é pouco, seus CDs não vendem e ele não abre mão do rock para tentar outros estilos que possam o sustentar. O sonho de ser um cantor de sucesso parece que abafa a realidade. Só que nem sempre é possível fugir dos fantasma do passado e o luto e a vida adulta o encontram quando ele menos espera.
Com simbolismos, o filme ganha ao explorar uma vida comum e infeliz. Em Vicente, vemos vizinhos, colegas de trabalho, até amigos. Pessoas que estão imersas em suas próprias vidas frustradas e não fazem nada para virar o jogo.
Vinícius de Oliveira convence no papel e acaba conseguindo simpatia do público. A montagem é outro ponto alto do filme, que se torna dinâmico, engraçado e triste ao mesmo tempo.
Apesar da irregularidade e do potencial desperdiçado, “Leite em Pó” é um filme ousado, que dá luz e voz a um protagonista que parece alguém que você conhece. Isso deixa o longa interessante e encantador.
Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto