Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day), um dos blockbusters mais esperados do ano já está em cartaz no Brasil e com ele a expectativa de uma grande novidade no Universo Marvel dos Cinemas. O segundo filme de Destin Daniel Cretton na Marvel Studios (terceira empreitada, pois também assina a série do Magnum), é de longe seu pior trabalho. Mas é importante destacar, que esse resultado precisa, por justiça, passar também por quem também escreveu o novo longa do Cabeça de Teia: os roteiristas principais Chris McKenna e Erik Sommers,e claro, por quem deu as diretrizes a todos eles, o todo-poderoso Kevin Feige. Afinal, tal qual Supergirl, um barco não afunda e um avião não cai por obra de uma única pessoa. Há conjunto e regularidade nesse todo.
Eu sei que provavelmente o filme será um sucesso de público. Poucas vezes nos últimos anos vi tanto movimento em um cinema como nessa quarta-feira, 29 de julho. As filas eram todas para Homem-Aranha, e o clima era de jogo, pois a maioria estava com suas camisetas e fantasias, entusiasmados com este “novo dia”. Confesso que ultimamente o Universo Marvel parece realmente cansado e com poucos respiros de novidades. A clássica fadiga dos metais. Então, Tom Holland, Zendaya e Sadie Sink levavam realmente nos ombros algum tipo de esperança para que este “novo dia” chegasse. Mas o quarto filme solo de Holland no papel de Peter Parker é realmente o pior da sequência. E muito disso é por causa da maior expectativa criada (pelo marketing do filme e pelos fãs) em torno da personagem da nossa Max de Stranger Things. O mistério em torno da personagem da jovem e excelente atriz foi provavelmente a pior escolha para um filme do Homem-Aranha. Mas é claro, o mundo é livre e você pode muito bem discordar de tudo isso.
Em “Um Novo Dia”, vemos Peter Parker lidando com a consequência gigante que ele herdou de sua última missão (Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa). O feitiço (do Doutor Estranho) para que ele seja esquecido e deixe de colocar em risco todos aqueles que o cercam parecia finalmente recentralizar o personagem para o que os quadrinhos mais clássicos sempre contaram: Peter Parker é pobre, precisa fazer seu próprio uniforme, é um desconhecido e tudo para ele sempre é absurdamente difícil. E tudo acaba espelhando em sua faceta de herói. Em partes isso acontece. Em partes, pois ultimamente falta coragem para a Marvel sustentar seus próprios atos.

O longa começa promissor, com várias homenagens e “splash pages” do Aranha contra seus vilões “urbanos e mundanos”. A maior delas, que imita a clássica capa da primeira revista em quadrinhos do personagem e que aparecia nos trailers, vem depois de uma sequência estranha de heroísmo, algo que pareceu forçado e mal editado. Mas, ok, eu queria falar da parte boa por aqui. A primeira metade do longa é dinâmica, interessante, envolve bem os personagens do Justiceiro (aqui com um amaciado Jon Bernthal, que pouco lembra o que vimos na série e no recente especial da DisneyPlus) e o professor Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo, sempre à vontade no papel), e mais algumas surpresas que foram interessantes de ver na tela grande e não em spoilers das redes sociais na internet.
Tudo parecia caminhar para que realmente e finalmente tivéssemos aquele filme do Homem-Aranha mais pé-no-chão, sem grandes alardes, multiversos, escalas cósmicas ou algo parecido. Era o recomeço necessário. Mas algo na trama estava com pouca sustentação. Uma palavra, uma possível grande ameaça parecia orbitar a empresa Controle de Danos (que desempenha um papel central na trama), acabou sendo o “calcanhar de Aquiles”, e a explicação necessária acabou, como citei anteriormente, sendo a pior coisa da trama. Além disso, o filme insiste em deixar Peter cercado de tecnologia Stark (ou algo parecido com isso). Desnecessário.
E fica difícil caminhar nessa crítica sem tirar o bode da sala. O papel de Sadie Sink é realmente aquele que a maioria ventilava por aí. E fica absolutamente fora de contexto tal introdução, a forma em que ocorre e o próprio background (aleatório?) criado para que ela firmasse seu alicerce no roteiro principal. E isso lembrou muito o que aconteceu na sequência de filmes estrelada por Andrew Garfield (focada nos pais verdadeiros de Peter Parker…?). A ânsia por fazer algo muito diferente acabou tirando um pouco do foco do personagem. Nada contra, os quadrinhos já nos mostraram que tudo pode acontecer, não é mesmo? No entanto, quando tudo isso parece não se encaixar na tela, as coisas parecem realmente escorrer pelo ralo.
Com um desfecho envolvendo “poderes mentais” e “telepatia”, estava pronta a desculpa para que tudo que foi construído em “Sem Volta Para Casa” fosse pelos ares. Lembra da tal coragem para arcar com as consequências de suas próprias histórias que eu citei antes? Pois é. Na Marvel, nada parece mais importar. O que foi construído e nos emocionou em um filme, é facilmente alterado no outro. De ponto alto fica o “Marvel Team-Up com Aranha, Hulk e Justiceiro”, porque o resto, realmente foi complicado.