Quando foi anunciado, “Antártida” gerou muitos questionamentos. Um filme que se passa em uma estação de pesquisas no extremo sul da Terra, totalmente coberto por gelo. Pela dificuldade de gravar nessa alocação, o Rio de Janeiro virou uma geleira para o longa. Porém, é estranho afirmar que, da obra audiovisual de Bruna Safadi apresentada em sessão Hors Concours no primeiro dia do 54º Festival de Cinema de Gramado, a neve artificial foi o elemento mais convincente.
Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, é uma pesquisadora que chega até a base da Marinha na Antártida para desenvolver seu projeto. Já na primeira noite, o batalhão resolve promover uma festa para entrosar os novos colegas de confinamento. Com muita bebida e ao som de “Passinho do Volante”, Inês desmaia e é violentada. Entra em cena a implacável Subcomandante Andréa Beltrão, que tenta desvendar o crime, tornando todos os homens culpados.
A premissa do longa é interessante. Pessoas confinadas, um crime acontece. Alguém que está ali é o culpado, como Agatha Christie gostava de fazer. Porém, em “Antártida”, existem questões que nos impedem de nos conectarmos com a história. Não é só o refrão “ah, lelek lek lek lek”, um sucesso de 2012, que está datado. A ideia do próprio feminismo parece desatualizada. Na fala de abertura, a equipe comentou que o filme demorou nove anos para ser feito e, por aí, entendemos porque algumas decisões estão tão equivocadas para os dias atuais.
“Antártida” se torna um filme didático, tanto em seus diálogos, bem como em suas representações. Todas as mulheres se dando as mãos diante aos possíveis agressores para representar que elas estava juntas é um gesto até desnecessário. O arranjo podia ser feito em diálogos, não tão expositivos.
Talvez o mais chocante do longa seja mesmo o elenco de peso tão desafinado. O destaque positivo vai para Leandra Leal, que vive Marina, e Lázaro Ramos, o Capitão Vicente. A dupla convence em cenas em que o casal briga, inclusive nas difíceis cenas das agressões de Vicente em Marina.
Os equívocos no roteiro também chamam a atenção e parecem tirar a pessoa que está vendo o filme para bobo. Afinal, a observação simples dá a resposta do crime de uma forma muito mais rápida que o filme parece querer.
“Antártida” foi concebido inicialmente como série, mas transformado em um longa-metragem, condensando a narrativa. Seu grande acerto é o que poderia dar mais errado: as cenas realistas da neve. Como primeira experiência, podemos dizer que a Globo atingiu um novo patamar de entrega de conteúdo. O filme fica devendo todo resto.
Foto oficial: Ticiane da Silva/Ag.Pressphoto
