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“Nosso Segredo”, de Grace Passô, aposta no sensorial para contar sua história

Luto. Um sentimento difícil de entender, de sentir e de digerir. Dói em cada pessoa de uma forma diferente. “Nosso Segredo”, estreia de Grace Passô na direção de longas-metragens fechou a Mostra Competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado abordando, de forma artística, o impacto da morte.

Cada integrante de uma família mineira está tentando processar um luto recente. Porém, o que impera entre eles é o silêncio, quase ensurdecedor. Afinal, ninguém conversa entre si, não relata o que está passando nem sentindo. E é nesse hiato do não-dito que o filme cresce. As relações de todas as personagens estão em ruínas e cada um está lidando de uma forma diferente com a sua perda. É nesse momento que entra o realismo fantásticos e os artefatos lúdicos para explicar o que não pode ser falado em diálogos.

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“Nosso Segredo” faz muitas perguntas que cabem ao espectador preencher a resposta. É um grande exercício de imaginação para quem embarca na história e tenta ler as entrelinhas daquilo que não é falado. Todos os elementos de cena podem ser – ou não – formas de entender o roteiro que não se propõe a se explicar. Se os diálogos didáticos e expositivos foram problema de alguns filmes nesta edição, o longa de Grace Passô vai por um caminho totalmente diferente.

Provocativo, o filme aborda luto, racismo, relações familiares e amorosas de uma forma não usual. Nem tudo na ousadia proposta dá certo, mas existe uma grande sensibilidade em abraçar as tentativas. Esse filme não parece ser feito para quem gosta do cinema mais conservador e linear, existe uma experimentação interessante nessa obra que não conversa com todos os públicos. Precisei pensar bastante quando as luzes se acenderam, mas comigo funcionou.

Em aspectos técnicos, “Nosso Segredo” é realmente impressionante. A fotografia belíssima conversa com a trilha sonora precisa e fazem uma obra de arte cinematográfica. A direção, com os jogos de câmera bem utilizado se destaca, deixando Grace como uma das grandes favoritas ao Kikito nesta categoria.

Além do elenco coeso, que funciona muito bem junto, a casa se torna personagem importante do filme. O espaço ruindo representa como está o interior de cada um. A sensação de sufocamento, das janelas fechadas, da parede desgastada, ilustra como estão as emoções não verbalizadas.

“Nosso Segredo” utiliza elementos sensoriais para abordar de forma não óbvia um dos maiores medos da nossa sociedade, a morte. É um filme para quem gosta de ser desafiado pelo cinema. O longa, que já passou por festivais importantes, como o de Berlim, estreia no Brasil dia 27 de agosto.

Veredito da Vigilia

Foto oficial: Cleiton Thiele/Ag.Pressphoto