Eu, Tonya, uma história real, e surreal | Crítica

Ao assistir “Eu, Tonya” é preciso saber: estamos diante de uma história real, quase que inacreditável. Fato. Ao mesmo tempo, é preciso considerar que é cinema, então, coloque-se alguns poréns por aí. Certamente muita coisa é dramatizada ou potencializada. Feita essa ponderação, ainda assim estamos diante de uma história real, e, mesmo tirando-se o romance todo, é surreal. E o filme de Craig Gillespie (Garota Ideal, A Hora do Espanto) é quase didático, fiel em figurinos, na recriação dos anos 90 e dos personagens, e surpreendente do ponto de vista em que coloca a ambiguidade nos personagens principais. É um relato incrível e uma montagem esperta, que nos remete diretamente a um dos episódios mais chocantes do esporte norte-americano, e tudo isso na vida conturbada da patinadora Tonya Harding. Tudo indica que a moça não teve uma vida lá muito fácil. Ao mesmo tempo, o longa coloca em cheque a saúde mental de quase todos os personagens centrais. É uma extasiante história de contradições e altos e baixos (mais baixos do que altos, no final das contas). “Eu, Tonya” está indicado a três Oscar, para Melhor Atriz para Margot Robbie (Tonya), o que é merecido, e Melhor Atriz Coadjuvante para Allison Janney (LaVona Golden), espetacular como a mãe carrasca da patinadora. Completa a lista a indicação para Melhor Montagem.

Forte concorrente ao Oscar, Allison Janney está impecável como a mãe de Tonya.

Logo de cara somos transportados aos anos 90. A edição estilo filme em VHS só falta pedir para que se ajuste o “Tracking” (você que usou videocassete sabe do que estou falando). Começamos também com relatos dos atores Margot Robbie (Tonya), Sebastian Stan (como Jeff Gillooly, o marido) e Allison Janney (LaVonda, a mãe) como se fossem entrevistas de um documentário. Praticamente, os atores falam com o expectador. Mesmo que tudo caricato, perceberemos ao final do filme que os personagens eram realmente assim, o que torna tudo ainda mais surpreendente. Na história, Tonya é uma americana caipira, criada da forma mais grosseira possível para uma menina. Aos três anos ela é levada ao rinque de patinação no gelo, e de lá, só saiu quando punida e banida do esporte. Percebemos que Tonya levará sua delicadeza (ou melhor, a falta dela) para toda a vida. É a delicadeza de quem coloca Heavy Metal para apresentações artísticas no gelo (embora isso hoje em dia não tenha tanta relevância). Ela é cobrada a ser como as demais patinadoras, leves, lindas e um modelo a seguir, um clássico estereótipo. E por não ser, sofre até com as notas dos juízes nas principais competições. Ela precisa usar o que as outras usam. Ser alguém que ela não é. Mas com uma família mais humilde e com pais em conflito, isso não funciona muito bem. Ao ponto que o “necessário” casaco de peles é feito com a pele dos coelhos que ela mesma ajuda a caçar. A chiqueza passa longe.

Tonya (Margot Robbie) não se enquadrava nos estereótipos estabelecidos.

E nessa onda de pouca leveza, ela apanha da mãe, e vai passar boa parte da vida a dois apanhando do marido. No melhor verso “entre tapas e beijos”. Mesmo com todos os percalços, ela vai se destacando no esporte. E aqui surgem as cenas com efeitos especiais, o que pode levar alguma estranheza. O rosto de Margot Robbie foi colocado em dublês e a aceleração dos movimentos, principalmente nos giros, são propositais para as passagens de cenas. Vistas no cinema e com o background de toda a história, fica difícil até mesmo não torcer para que ela não erre qualquer movimento dentro do rinque. A trilha sonora ajuda nessas cenas, com o rock de Tonya abraçando nossos tímpanos.

O momento que todos esperam no filme: o “incidente” com Nancy Kerrigan

Basicamente Tonya vive entre os altos (normalmente quando vai bem nas competições) e os baixos (sua vida fora da patinação). Ela vai se ferrando cada vez mais, gradativamente. Até o momento em que os atores olham para a câmera e relembram o “incidente”. Tão famoso quanto o caso de O.J. Simpson, o “incidente” remete ao dia em que, a mando do marido e do seu “segurança” Shawn (o também excelente Paul Walter Hauser) quebram o joelho da patinadora e maior rival Nancy Kerrigan para tirá-la do páreo. O fato ganhou as manchetes do mundo todo, e, na época, não privou Tonya de competir. Além disso, parece não ter tido todo o efeito prático, o que ficou provado na colocação das patinadoras nos Jogos Olímpicos que seguiram o tal “incidente”. Nesse momento, o drama sobe e vemos a melhor parte da atuação de Margot Robbie e seus pares. E os tons de peça surreal sobem ainda mais. E a gente se pergunta na poltrona: “Mas que ideia foi essa?”.

Shawn é interpretado por Paul Walter Hauser. Você vai se surpreender com a semelhança entre atores e personagens reais

Tonya Harding tem sua história contada e dramatizada de forma em que todos comprem o seu lado. Não dá pra dizer realmente se tudo foi daquele jeito, mas uma coisa é certa: essa era uma história que precisava ser recontada. E vale por cada segundo. A Vigília Recomenda!

Veredito da Vigília