Abuso romantizado é a marca de Cinquenta Tons de Liberdade | Crítica

Vamos lá: como vocês já leram aqui na Vigília, em 2017 assistimos e produzimos a crítica de Cinquenta Tons Mais Escuros. Este ano, recebi a tarefa (inglória) de conferir Cinquenta Tons de Liberdade, filme que encerra a saga ‘Cinquenta Tons’, baseados nos romances de E.L. James e estreia no dia 8 de fevereiro, nas vésperas do Dia de São Valentim, Dia dos Namorados em vários países. O filme causa frisson entre mulheres de todo mundo. Na semana de estreia, os maiores cinemas do Rio Grande do Sul, por exemplo, chegam a ter dez sessões exibindo este filme. Isso mesmo: DEZ. Porém, devido às minhas crenças (neste caso, nem um pouco religiosas, mas sim humanas), assisto essa saga por um viés feminista. Assisto por um viés de quem não pode compactuar com um abuso romantizado nas salas de cinema. E sentencio: esse filme presta um desserviço à população, principalmente, às mulheres. Abaixo, temos uma análise repleta de spoilers.

Podemos começar pelo começo, numa belíssima cerimônia de casamento entre Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson). A produção não deixa a desejar, assim como nos outros filmes da saga. O que incomoda mesmo são os diálogos. Uma das primeiras frases de Christian, depois dos votos e juras de amor eterno, são: “Vamos embora, não quero dividir você com todo mundo”. Oi? Isso quer dizer que ela é propriedade dele? Corta. Passamos para a lua de mel. O casal está na Grécia, um lugar onde as mulheres comumente fazem topless. Ana decide que quer fazer também. O marido não permite. Então ela espera ele ir nadar e tira a parte de cima do biquini. Quando ele percebe, dá um showzinho e faz questão de mandar ela se cobrir. Corta. Quando eles voltam para a realidade, Christian interrompe Ana no meio de uma reunião de trabalho para questionar o porquê de ela não ter trocado o e-mail para Ana Grey e continuar como Ana Steele. A grande impressão que temos é que Christian compra Ana e ela se torna apenas uma ‘coisa’ dele, algo que ele pode ter e manipular.

Para apaziguar os ânimos, o maridão boa pinta leva a esposa indefesa para conhecer a casa que será do casal. Isso mesmo, Ana viu uma casa no segundo filme em um passeio e ele resolveu comprar. Sem a esposa poder ajudar a escolher. Porém, chegando lá, eles são recepcionados por Gia, uma arquiteta que parece ter interesse em Christian. Para mostrar que Ana não é mais só uma mocinha (?), quando Grey sai da sala, a esposa ameaça a arquiteta mandando ela parar de dar em cima do seu marido. Ou seja, o filme ainda consegue travar uma competição entre mulheres, totalmente desnecessária.

Em todo o tempo da saga, a impressão que temos é de que, para Christian, pouco importa o que Ana quer, o que ela tem vontade. As coisas que ela deseja fazer não são nem um pouco relevantes para ele. Principalmente, quando isso se relaciona ao trabalho e carreira dela. No segundo filme, ele compra a editora em que ela trabalha. Agora, quando ela volta de lua de mel, ela ganha uma promoção, que não parece vir por mérito totalmente dela (não quero dizer aqui que ela não mereça, mas que a forma como foi feita foi bem estranha), mas é o jeito dele para manipular também. Muitas vezes, ele quer viajar e ela diz que não pode ir por causa do trabalho. A resposta dele é simples: desmarque. Afinal, para quem importa o que ela faz? Isso mesmo, para ELA. Quando ela consegue se desvencilhar e trabalhar, sem seguir a agenda do marido, ela resolve sair um dia e beber com uma amiga. Claro que deu pano para manga e o marido controlador não aprovou o comportamento. Ana é quase raptada pelo vilão da série, que não é ninguém menos que o seu antigo editor. Descobrimos depois que tudo foi motivado porque Jack Hyde (Eric Johnson) morou no mesmo abrigo que Christian Grey e acha que poderia ter tido a vida dele se os pais decidissem adotar ele invés de Christian. Enfim.

E se reclamamos do pouco sexo no segundo filme, devemos dizer que nesse não ocorreu o mesmo problema. As cenas de sexo acontecem o tempo todo, das formas mais desconexas possíveis. Temos uma perseguição de carro que termina com os dois transando dentro de um estacionamento, à luz do dia. Se Christian achava que Ana não podia fazer topless porque ela poderia sair na capa de um tablóide, poque transar no estacionamento não ia ser manchete? Fica o questionamento. Eles brigam, acaba em sexo, estão triste, transam. Ana, inclusive, usa as relações sexuais como uma grande moeda de troca. Tudo ela responde com sexo.

E sexo gera o que? Bebês. Para quem não se lembra, no primeiro filme, Ana foi obrigada a tomar injeção para não engravidar. Mas com essa questão de casamento e viagem, ela acabou esquecendo. Quando ela se vê grávida, bate o pavor, já que ela não sabe como o marido vai reagir. Ela é casada com um cara absurdamente imprevisível e nunca havia falado sobre a vontade de ter filhos com ele. Quando ela fala sobre a gravidez, ele surta, sai de casa e retorna, horas depois, completamente bêbado. Ana precisa tirar a roupa dele e colocar ele na cama. Quando coloca o celular do marido na mesa de cabeceira, vê uma mensagem de Elena, a única mulher que Ana pediu para ele evitar, por tudo que ela já havia aprontado para o casal. Mas no momento do aperto ele corre para quem? Isso mesmo, para a ex. Ana questiona Christian, que fica absurdamente agressivo. Ele fala frases como “não quero te dividir com mais ninguém” e “quando os filhos vêm, termina o sexo”. Como se a única responsável pela gravidez fosse Ana.

Contudo, não tivemos apenas problemas neste filme. Apesar da atuação fraca de Dakota Johnson (que, depois de três filmes, já estou quase convencida que é para ser assim mesmo), Jamie Dornan consegue surpreender e está melhor que nos outros dois filmes (o que talvez não seja um grande mérito), apesar de seguir um tanto quanto robótico. Porém, a química entre os dois é inexistente. O diretor James Foley fecha a saga de uma boa maneira, já que as cenas e os cortes são bem feitos e a trilha sonora é interessante, pop e animada. Destaque positivo também para as belas alocações. Mas isso não salva o enredo pífio e falho.

Queria, do fundo do meu coração, que as mulheres que assistem e são fãs dessa séries percebessem que elas só não acham estranho toda essa movimentação porque o personagem abusador é rico. Queria que elas vissem que amor, paz, serenidade, carinho e companheirismo dinheiro nenhum pode comprar. E que, se você estiver em um relacionamento abusivo, as chances de você mudar o abusador são mínimas. Ser controlada, precisar ter relações sexuais contra sua vontade, ser privada do convívio da família e dos amigos, desestimulada à ter uma carreira são indícios de violência doméstica. Lembre-se sempre: ele não precisa te agredir fisicamente para te violentar. Nesses casos, busque ajuda, procure o disque-mulher ligando para o número 180. Isso não é normal, isso não é certo e estamos juntas.

Veredito da Vigília