O Insulto | Crítica

Muito mais pela ideia do que pela execução, O Insulto (2017) é um filme que toca uma ferida que jamais cicatrizou e que merece uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma guerra instaurada e impregnada em gerações e gerações de dois povos acaba consolidando que diferenças e preconceitos são questões que precisam ser debatidas enquanto existirmos como humanidade. Apesar de esbarrar em chavões e situações desnecessárias (mas que podem passar até mesmo batidas para alguns), ele traz um recado que precisa ser dado, sem cair em panfletagens políticas ou religiosas, oscilando a trama como uma balança que busca um equilíbrio após receber seus pesos. Isso tudo acaba deixando para o espectador a necessidade de refletir sobre todas as situações apresentadas. E talvez não haja lado certo ou errado. O tema central? Uma crise particular entre Toni (Adel Karam), um cristão libanês, e Yasser (Kamel El Basha), um refugiado palestino, em um bairro de Beirute. Ou seja, um barril de pólvora prestes a explodir.

Shirine (Rita Hayek) e Tony Hanna (Adel Karam). Você vai sentir raiva desse cara.

Dirigido por Ziad Doueiri, logo nos primeiros segundos já vemos a preocupação da obra em tratar de um assunto e um conflito tão delicado. “A obra não expressa a opinião de qualquer governo ou do país envolvido na produção (Líbano, Bélgica, França, Chipre e Estados Unidos)”. Dali por diante, vemos na apresentação dos personagens e do conflito, as cenas mais angustiantes e que costumam mexer com os nossos brios. Toni é um mecânico que mora com a esposa Shirine (Rita Hayek) em um bairro que está sendo reurbanizado pelo governo. Com um encanamento mal projetado, ele acaba molhando o engenheiro Yasser, que acaba xingando o proprietário. Decidido a tocar seu trabalho, Yasser e sua equipe mandam consertar o cano, que é prontamente destruído por Toni, que se sente insultado e quer a todo custo um pedido de desculpas. Um fato simples e corriqueiro que acaba expondo traumas dos dois povos, preconceito e uma raiva exacerbada de um para o outro. O tribunal é só o começo da crise.

Yasser (ao centro, Kamel El Basha) vive o refugiado palestino.

Yasser é visto como vítima de um crime racial, por todo o contexto. O mecânico Toni leva a pior e nos faz ter muita raiva de quase todas as suas atitudes, construídas e levadas por uma adoração quase cega a um movimento político e religioso. A partir daí, a bola de neve só aumenta, gerando uma crise midiática, política e social perante todo o país. Tudo por um movimento que pode acontecer em qualquer bairro, de qualquer cidade, de qualquer lugar do mundo.

E esse foi o resultado do orgulho e preconceito envolvidos em O Insulto.

É quando vai se encaminhando para seu desfecho, e durante as situações ocorridas nos tribunais (regadas a situações traumáticas por ambos os lados) que O Insulto acaba se tornando muito burocrático. A ideia de explorar um conflito como esse pode gerar esse tipo de situação. É até compreensível. Principalmente se a ideia é justamente ficar em cima do muro, apenas apresentando fatos sem tomar partidos ou lados. A obra opta por uma imparcialidade que é realmente rara nos dias de hoje, onde cada um quer defender sua opinião e fazer com que ela se consolide, dividindo o mundo entre os que concordam com um tema e os que não concordam, sem meios-termos. Mas a ideia do filme é fundamental. E, como talvez eu não tenha alguma sugestão melhor para o encerramento de tamanho conflito, aceito e absorvo o impacto. A execução já foi feita, mas o que importa aqui é a ideia. A ideia é fundamental.

Veredito da Vigília