Lady Bird – A Hora de Voar | Crítica

Escrito e dirigido por Greta Gerwig, é fácil elencar os pontos positivos de Lady Bird – A hora de voar. Primeiro que é uma história original, feita com o coração sobre a vida como ela é, sem grandes truques ou mirabolâncias. Segundo porque é fácil identificar todo o cuidado da produção em contar uma história sincera e quase autobiográfica. Terceiro porque explora uma relação familiar, entre mãe e filha, sem soar piegas, clichê ou algo enfadonho. Caso as três indicações iniciais não sejam motivadoras o suficiente, deixe-se levar pelo crédito deixado por um Globo de Ouro de Melhor Filme (Categoria Comédia), um Globo de Ouro para Melhor Atriz (com a protagonista Saoirse Ronan) a indicação ao Oscar de Melhor Filme e as indicações para Melhor Atriz (novamente Saoirse) e Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf, a mãe) e também a indicação da única diretora mulher ao prêmio máximo do cinema. A estreia no Brasil é dia 15 de fevereiro.

Saoirse Ronan, a Lady Bird, com a diretora Greta Gerwig. Coramão pra elas!

Desde o início fica claro o tom que mescla o drama e o humor. Com uma linguagem menos Hollywoodiana e mais de cinema alternativo, Lady Bird é a história de uma adolescente que vive na pequena cidade de Sacramento, na Califórnia, e tem os conflitos de alguém que está quase se tornando adulta, com escolhas, relacionamentos amorosos, o final do High School, empregos e a vontade de sair da cidade do interior e viver novos ares em uma metrópole. Tudo isso vai depender dela, mas em seu contexto com uma escola Católica, onde a maioria das pessoas já tem seu destino traçado, as coisas ficam um pouco mais complicadas. Existe a comodidade, uma mãe zelosa, um pai que fica desempregado, namoros que não dão muito certo e aleatoriedades nos interesses e amizades.

Os pais da passarinha, Larry (Tracy Letts) e a indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante Marion (Laurie Metcalf)

Christine quer ser chamada de Lady Bird. E esse nome artístico desde o início mescla uma pretensão adolescente e uma atitude, digamos assim, estranha. O apelido até que funciona, e serve justamente para destoar a protagonista de tudo que a cerca. A história, mesclando todos os aspectos antes citados é sobre relacionamentos e pertencimento. Lady Bird acha que não pertence aquele lugar, e só sabe dizer e ir contra tudo que a mantém em Sacramento. Ao mesmo tempo, com seu caráter em formação, sua maior barreira está em casa. Será que ela tem mesmo certeza de tudo que quer? A mãe fiscalizadora ao extremo, mas não uma ditadora, é só preocupações, mas veste uma máscara que a torna quase insensível para a filha. Em contrapartida, estamos sempre sendo jogados a atitudes que mostram o quanto ela se preocupa com Lady Bird. Já com o pai, a relação é mais afetuosa e aberta.

Timothee Chalamet, indicado ao Oscar por Me Chame Pelo Seu Nome, também dá as caras em Lady Bird

As atuações realmente são pontos altos da trama. E pelo meio do filme identificamos até mesmo mais um indicado ao Oscar: o garoto Timothee Chalamet (que na verdade foi indicado por seu desempenho em Me Chame Pelo Seu Nome). Tudo é muito verossímil, e de certa forma, mesmo não fazendo as melhores escolhas, fica muito clara a simpatia da protagonista. Ela precisa quebrar a cara para aprender algumas lições. Mas quem é que não precisa, não é mesmo? Os ensinamentos de todo o filme ficam perceptíveis, mas melhor do que isso, são construídos de forma natural. Não há apelos para que alguém vá às lágrimas durante a sessão. E se isso acontecer, será igualmente natural. As relações com a mãe, com as amigas, com os interesses amorosos e com a cidade, tudo é bem trabalhado, ao ponto de que nosso envolvimento passe a ser de admiração. Não por Christine “Lady Bird” McPherson, mas sim por “Lady Bird – A Hora de Voar”. Um suspiro de satisfação em forma de filme.

Veredito da Vigília