Kakegurui – Vamos apostar até a loucura? | Crítica

Dizem que o dinheiro move o mundo. Mas e quando ele não for suficiente para continuar essa motivação, o que poderia ser oferecido? A resposta pode estar em Kakegurui, anime que estreou os seus primeiros 12 episódios na Netflix no dia 1º de fevereiro de 2018. Tendo como base o mangá Kakegurui – Compulsive Gambler, de 2014, escrito por Homura Kawamoto e ilustrado por Tōru Naomura, a história se passa no Hyakkaou Private Academy, escola onde somente os mais abastados possuem o privilégio de estudar, já que o lugar é conhecido pelo hobby de seus alunos em apostar altas quantidades de dinheiro em jogos de azar. Mas não são somente os ienes (moeda japonesa) que eles perdem. A dignidade e o status social também. Tudo comandado pelo grêmio estudantil da escola, que dita as regras do que acontece.

Os olhos da personagem principal ficam vermelhos quando uma disputa a deixa muito “animada”

Essa “harmonia”, na qual todos já sabem o que pode acontecer caso desafiem o sistema criado pelo grêmio é abalada quando a nova aluna, Yumeko Jabami, passa a frequentar a instituição. Yumeko é viciada na adrenalina de jogar e desde o início já desafia as principais figuras do lugar, sendo até mesmo imprudente em certas disputas, mas conseguindo o seu principal objetivo, que muito antes de ganhar, é mudar o status quo do Hyakkaou Private Academy, mostrando que cada pessoa é dona do seu destino. Essa é com certeza a mensagem mais presente no anime. A protagonista interage com os outros personagens, mostrando que eles têm personalidade e que podem governar o seu livre arbítrio.

O dinheiro não é a única maneira de se pagar uma aposta

A crítica ao capitalismo é bem marcante também. Praticamente em todos os embates – que em sua maioria são disputados com jogos de cartas – o dinheiro é o prêmio inicial. E aqueles que tem mais, pensam que por causa disso poderão vencer facilmente, já que não precisam se preocupar em cobrir as apostas. Porém, quando não se tem mais dinheiro, mas mesmo assim a adrenalina do duelo continua latente, pedindo para que o jogo não se encerre, unhas dos pés e das mãos, olhos, ser expulso do colégio e até mesmo a própria vida são colocadas como opção de pagamento. Aliás, é impressionante como a história te prende em cada um dos enfrentamentos, desde um jogo simples de pedra, papel e tesoura, até um jogo da memória com cartas.

Mesmo um simples jogo de cartas se transforma em uma disputa eletrizante nesse anime.

Todo esse fervor por estar no meio a uma disputa tão perigosa é o que move a maioria dos personagens, em especial a protagonista, que chega a ficar excitada com esse contexto. A mudança em seus olhos, que adquirem um vermelho tão intenso quando ela está nesse êxtase, é como se Yumeko entrasse em modo de combate, demonstrando o quanto ela está focada naquele jogo. Todos os personagens, inclusive, tem suas feições alteradas enquanto jogam, explicitando o seu estado mental naquele momento.

Outra denúncia é a de pessoas que não podem decidir seus próprios futuros, que já foram escolhidos pelos seus pais. Essas carreiras ou posições sociais sufocam vários personagens, que se veem obrigados a cumprir uma meta que não foi traçada por eles, mas que, mesmo assim, irão fazer o impossível para alcançá-la. É uma animação com uma preocupação de mostrar que os fins nem sempre justificam os meios.

Alguns apostadores não têm medo de arriscar a própria vida durantes os jogos.

A única coisa negativa do anime é o tema de encerramento. Enquanto a abertura é um show a parte, com cores que remetem aos alunos dentro de um aquário (metáfora essa utilizada durante a história), e com uma música nada convencional, mas que encaixa muito bem com a proposta, a música final é um clipe que foca em mostrar os “dotes” de Yumeko Jabami, com direito a camisa molhada. Para um anime no qual as mulheres são maioria (os homens são raros, chegando no máximo a meros coadjuvantes ou caras escrotos) e tem funções importantíssimas, como a antagonista e líder do grêmio estudantil, que é uma garota, apelar para mostrar o corpo da protagonista não combina. Claro, existem momentos, enquadramentos e cenas sensuais envolvendo as meninas da escola, mas nem se compara. Creio que isso pode incomodar o público feminino, que talvez não se sinta representado por essa produção que tem um elenco recheado de girl power.

 

 

Veredito da Vigília