A Forma da Água, a fábula de amor e diferenças de Guillermo del Toro | Crítica

Guillermo del Toro coloca emoção e o coração em tudo que faz. O cinema é sua paixão. E isso fica mais do que evidente em A Forma da Água, filme que chega dia 1º de fevereiro aos cinemas de todo o país. A produção ainda chega vitaminada com todo o estofo que 13 indicações em diferentes categorias do Oscar pode dar. E cada uma delas é merecida. A Forma da Água é uma fábula que fala de muitos assuntos, de forma sutil, nas entrelinhas, com capricho em cada uma delas, em cada cor, em cada referência e em cada detalhe. E acima de tudo, é um filme de Guillermo del Toro. Possivelmente o maior elogio que se pode fazer hoje em dia.

Guillermo del Toro é o regente de Sally Hawkins e seu fiel escudeiro, Doug Jones.

Desde os primeiros segundos do filme já percebemos a forma que tudo será levado. Aliás, preste atenção em todas as formas. O diretor mexicano tem uma assinatura muito própria, um visual muito particular e mergulhar nesse mundo é uma jornada e tanto. O misto de Bela e a Fera com O Monstro da Lagoa Negra (clássico de 1954) está lá, de várias formas. Aportado em Sally Hawkins (indicada a Melhor Atriz) e Doug Jones (fiel escudeiro do diretor) vemos uma história de amor entre diferentes. E aqui a primeira das mensagens do filme. As diferenças. Elas precisam ser respeitadas. Completam o elenco o sempre excelente Michael Shannon, como o malvado Richard Strickland, e o postulante a Melhor Ator Coadjuvante, Richard Jenkins, como o ilustrador Giles.

Richard Jenkins e Sally Hawkins. Uma dupla de excluídos. Uma dupla de diferentes. Foto de Kerry Hayes

Sally é Elisa e Jones é uma criatura capturada na América do Sul que vai ser estudada por uma agência governamental durante a corrida espacial. Os russos já mandaram um cachorro para a lua e os Estados Unidos ficaram para trás. Mas eles (os russos) estão infiltrados no laboratório cru, sujo e sessentista onde fica o homem anfíbio, que é uma mescla de Abe Sapiens (Hellboy 1 e 2) e do próprio Monstro da Lagoa Negra. Tudo com a clara identidade de del Toro. Elisa é muda e trabalha com a amiga Zelda (Octavia Spencer) como faxineira no local. Elas serão as encarregadas por limpar o laboratório onde a estranha criatura foi aprisionada para ser estudada pelo Dr. Hoffstettler (Michael Stuhlbarg). E claro, tudo começa aqui.

Abe Sapiens de Hellboy… digo, o homem anfíbio particular de del Toro

Embora a premissa já fica bem clara desde o início, A Forma da Água não se priva em enriquecer a história de cada personagem. Elisa usa um passador na cabeça, e ele vai refletir seu humor do início ao fim. Giles terá sua pequena jornada também, mostrando que o mundo pode lhe ter privado de suas opções, e quando ela transparece, fica comprovado que esse mesmo mundo não tem maturidade o suficiente para conviver, novamente, com a diferença. Strickland mostra a sua aura desde o início. Ele surge das sombras, vê sua vida de pensador positivista definhando com os incidentes do laboratório, e sua vida vai literalmente apodrecendo e caindo aos pedaços. Mesmo a história do seu carro verde (ou azul-petróleo) tem início, meio e fim. E claro, Zelda também é diferente e sofre junto com os seus o preconceito da sociedade. Além de ter um marido que só matando.

Michael Shannon, Sally Hawkins e Octavia Spencer dão show em A Forma da Água. Foto de Kerry Hayes.

E é com todas essas cartas na mesa que del Toro nos leva por uma viagem sem pausas, fluente e bem contada. E nela, não temos amarras ou pudores. A história de amor não se priva em mostrar o contato, não fecha a porta para as situações ou tenta deixá-la subentendida. Ela existe. E extrapola barreiras. É uma fábula e um cinema de fantasia da melhor qualidade, e pode ser de A Forma da Água a quebra de uma outra barreira, que é conquistar o Oscar de Melhor Filme sem ser um filme acadêmico, chato e que ninguém vai lembrar depois. A Forma da Água pode fazer história e colocar o cinema fantástico em outro patamar. Eu torço por isso.