“Lou”, a mulher que revolucionou sua época | Crítica

Em uma época que o protagonismo feminino ganha mais força, relembrar um passado um pouco mais distante acaba sendo um grande exercício de reconstrução histórica. Por isso, todos os méritos para o primeiro filme da diretora alemã Cordula Kablitz-Post: “Lou”. O longa conta a história de Lou Andreas-Salomé e traz para o nosso cerne como viviam as mulheres no final do século XIX. É também uma cinebiografia de uma das mulheres que inspirou ninguém menos que Friedrich Nietzsche, Freud e outros pensadores. Não por acaso, a história até agora só valorizou os nomes masculinos. Novamente, todos os méritos por este resgate, que coloca o devido valor à filósofa, psicanalista, poeta e romancista russa, que viveu sua vida na Alemanha.

Desde jovem, Lou (Liv Lisa Fries) foi questionadora.

Envolto numa aura de filme de arte e de época, com passagens comparadas a quadros de pintura à óleo, Lou faz a transição da intelectual por todas as fases da sua vida. Fora dos padrões da época e uma mulher revolucionária, Lou teria impactado fortemente a sociedade da época com seus pensamentos e ações. Ela não queria casar, não aceitava os rótulos e destinos colocados para as mulheres e se dedicava aos estudos desde cedo, se descolando dos estereótipos impostos pela sociedade. E claro, isso no século XIX não era “bem visto” pela família e pelo patriarcado. Ao longo do tempo, sua luta contra a correnteza serviu como grande exemplo para a evolução da luta feminista. E assim o faz novamente com este filme.

Na fase adulta, Lou conheceu Nietzsche e Paul Rée

Longe de ser uma grande produção, o filme tem também ares de cinema independente, deixando a narrativa desamparada em determinadas situações. O ritmo também tem uma edição irregular, mas traz uma honestidade em seu propósito nas idas e vindas das fases da vida da escritora. Entre algumas curiosidades, o filme constrói ela com uma das principais inspirações para filósofos como Paul Rée, Friederich Nietzsche e chegando até Freud. Na maioria dos casos, sua passagem pela vida desses homens teria sido decisiva para evoluções de seus trabalhos. A personalidade de Lou (interpretada na fase adulta por Katharina Lorenz) também teria arrancado fortes paixões entre alguns deles. Com a premissa de não se enquadrar nos padrões sociais de família, Lou deixou a razão à frente da emoção por muito tempo, privando-se, por exemplo, de seus possíveis romances. Isso, até conhecer o também escritor Rainer Maria Rilke, que, com muito esforço conseguiu demovê-la de algumas de suas convicções.

Na terceira idade ela também conquistava a admiração dos homens

Lou entra em cartaz no Brasil no dia 11 de janeiro, e é uma viagem interessante a um mundo não tão acessível ao grande público e às grandes redes de cinema. Talvez isso não possibilite um alcance expressivo junto ao público, mas é uma obra que vale a pena conferir e depois debater com amigos. Se hoje o protagonismo feminino ainda busca ser ouvido, e o cinema é um forte canalizador desse ativismo, essa luta já foi liderada outrora por Lou Andreas-Salomé. E ela provou que a luta pode ser feita.

Veredito da Vigília