Battle Angel Alita: O cyberpunk japonês que será adaptado para Hollywood

Texto de Jorge Bovuszewsky


Pode ser que Hollywood queira compensar o que foi feito recentemente com Ghost In The Shell (Vigilante do Amanhã), que teve a sua protagonista vivida por Scarlett Johansson. A questão é que os enredos são parecidos em diversos aspectos, como cenários, contextos e as histórias centradas ambas em personagens principais femininas e que dividem suas existências entre seres humanos recriados com máquinas.O diretor norte-americano Robert Rodriguez já se aventurou nos cinemas com filmes infanto-juvenis, sanguinolentos, baseados em quadrinhos e agora, aceitou o desafio de encarar o universo Cyberpunk. A adaptação de Gunnm (Battle Angel Alita, na versão americana), mangá escrito e desenhado por Yukito Kishiro, chegará nas telonas em 20 de julho de 2018. Sob a produção de James Cameron e Jon Landau, o filme deve ser inovador no quesito efeitos especiais, já que trará um visual realista de um mangá, com a protagonista sendo retratada com olhos grandes, assim como nos traços japoneses. O roteiro também terá assinatura de Cameron, além de Rodriguez e do próprio Kishiro.

O mangá é escrito e desenhado por Yukito Kishiro

A história

O Mangá de Yukito Kishiro possui nove edições, publicado entre 1990 e 1995. A história se passa em um futuro não muito distante, na cidade de Scrap Yard, um lugar que é praticamente um ferro velho de Zalém – local flutuante onde habitam somente os mais ricos. Lá o engenheiro cibernético Daisuke Ido encontra no depósito de lixo da Cidade da Sucata um tronco de uma ciborgue, com o cérebro intacto. Ao levá-lo para o seu laboratório, ele e seu assistente Gonzu, reanimam a “moça” encontrada e descobrem que ela está sem memória, não sabendo nem ao menos o seu nome. Ido então a batiza com o nome do seu gato já falecido, Gally, e a partir daí, fica no compromisso de reconstruir o corpo da ciborgue. Ido, aliás, é aquele cara boa praça, que conserta tudo e todos, mesmo que o cidadão não tenha chips (moeda local) suficientes para pagar. Para conseguir fazer isso, vive indo até o lixão encontrar algumas peças sobressalentes para os seus clientes. No filme, o nome deste personagem será adaptado para Dayson Ido, e será vivido pelo ótimo ator Christoph Waltz (que já levou Oscar por Bastardos Inglórios).

Aos poucos, Gally vai ganhando braços novos, depois pernas e logo já está completa. Ao ficar curiosa sobre as saídas a noite do seu novo “pai” e por que ele voltava machucado em alguma das vezes, Gally o segue, descobrindo que na verdade Ido era um caçador-guerreiro nas horas vagas. Os caçadores fazem o trabalho que um dia foi da polícia, extinta nessa realidade, caçando criminosos, que saiam por aí roubando, matando e até saqueando partes de humanos e ciborgues (que são 20% da população). No mundo de Gunnm é muito comum pessoas substituírem seus corpos por máquinas (aqui parte da relação com Ghost In The Shell), quase que inteiramente, com exceção da coluna vertebral e do cérebro, artefatos esses que são roubados ou comidos (isso mesmo) constantemente.

Capa do mangá japonês

Gally acaba se deparando com um desses criminosos ao seguir o Dr. Ido, enfrentando o temível Makuku, viciado em endorfina, que sai por aí atrás de deliciosos e apetitosos cérebros. Por incrível que pareça, a garota conhece diversas técnicas de batalha, inclusive algumas extremamente raras e quase vence o adversário. Porém, o corpo de Gally é destroçado, e a garota acaba salva pelo seu pai e sua marreta foguete. Quando o Dr. acreditava ter derrotar o grandalhão, a cabeça do cara se desprende do seu corpo e fere gravemente Ido, e foge prometendo vingança. O engenheiro cibernético consegue voltar ao seu laboratório com o que “sobrou” da ciborgue. Após se recuperar, a única alternativa de manter todos seguros é dar a Gally o corpo Berserker, que ele havia encontrado em uma nave desconhecida, mas que temia utilizar algum dia em alguém, já que possuía um poder destrutivo imenso.

Após ter mais uma vez o seu corpo reconstruído, Gally decide seguir os passos de seu cuidador, tornando-se uma caçadora-guerreira. Aqui temos uma das partes mais legais da história, na qual Ido diz para Gally que ele a reformou para que ficasse imaculada, que zelaria pela segurança dela, para que continuasse a ser apenas uma garota. Ela o retruca, dizendo que essas são as vontades dele, e que ela poderia escolher o seu próprio caminho, e que mesmo não lembrando de quem era, ainda tinha vontade própria. Feito o registro (que em ciborgues era realizado colocando um código de barras no cérebro, já que digitais e voz poderiam sofrer alterações constantemente), Gally começa suas missões de caçadora, trabalhando para a Fábrica 33, empresa que paga as recompensas pelos criminosos. Claro, que um reencontro com Makuku, que reconstruiu seu corpo, e outras batalhas, acontecem durante a aventura, como contra o Dr. Desty Nova, que faz experimentos macabros, sem se importar com as consequências.

O filme terá traços parecidos com o do mangá.

O OVA

Em 1993, o estúdio Madhouse produziu dois OVAs (siglas para Original Video Animation) – episódios mais longos do que o normal e produzidos diretamente para as plataformas de vídeo, como VHS, DVD, Blue-Ray – com mais de 30 minutos cada, que contam as duas primeiras sagas do mangá, com bastante destaque para o romance entre a personagem principal Gally/Alita e  Yugo. Esse arco é explorado mais adiante no mangá, enquanto que nos OVAs domina a história. Pelo que foi visto no trailer da produção de James Rodriguez nos cinemas, teremos esse elemento bem presente também na trama.

Relembre o trailer e o painel na CCXP de Alita – Anjo de Combate

Yugo é um jovem que vive sozinho e faz uns bicos. Gally descobre depois que ele também é um caçador, mas que faz isso apenas para guardar dinheiro e um dia conseguir se mudar para Zalém, assim como o seu irmão sonhou um dia. O fato de uma ciborgue ser uma máquina de matar e ao mesmo tempo se apaixonar tão profundamente por um humano é um ponto alto no enredo. Enquanto que no OVA, Gally parece ser mais infantilizada, no mangá ela tem uma personalidade forte e mais adulta. Provavelmente no filme será assim também, já que a atriz que a interpreta, Rosa Salazar, é mais velha do que a figura retratada na história original.

O Mangá no Brasil

No Brasil, o mangá foi publicado pela primeira vez em 2002 pela editora Opera Graphica como Alita Battle Angel. Tratava-se de uma única edição não licenciada. No ano seguinte, a JBC publicou uma nova versão intitulada Gunnm – Hyper Future Vision. Ao todo foram publicadas 18 edições, o dobro da edição original japonesa. Em 2017, a editora relançou o título como Battle​ ​Angel​ ​Alita​ ​–​ ​Gunnm​ ​Hyper​ ​Future​ ​Vision em uma nova edição especial com mais páginas reunindo todas as histórias em quatro volumes.