Entre Irmãs | Crítica

Longa nacional é uma das grandes produções do ano e traz Nanda Costa e Marjorie Estiano

Tem um novo épico surgindo aqui! E ele vem com grande produção e pinta de que vai chegar ao grande público. Certamente, assim que sair do cinema, ele já será transformado em minissérie, tais como outros filmes do diretor Breno Silveira. Ele é ancorado pela produção da Globo Filmes, que sabe bem como falar com linguagem de cinema e ao mesmo tempo construir a obra de modo que seja facilmente “fatiada” em uma exibição seriada para a TV. E o filme tem fôlego para isso. São 160 minutos em que acontece muita coisa, mas nada precipitado. Todos os arcos são amarrados e nada fica sem resposta. Há apenas uma ponta solta, de uns parceiros que sumiram e não entendemos porque uma personagem estava sozinha em seus momentos finais, mas nada que comprometa a narrativa (e aposto que na minissérie terá uma cena extra explicando isso!). Há cenas de ação que não convencem, mas tudo se supera pela representação das relações de poder. O pouco que se pode apontar como negativo nesse filme é só detalhe (e não entrarei em muitos detalhes). Os erros são mínimos, mas que determinam a não excelência do filme.

Do lado positivo, novamente, é preciso aplaudir a boa construção histórica de Entre Irmãs. Este é um filme de época, se passa nos anos 20 ou 30. E sabemos disso não por legendas com datas, mas pela ambientação, roupas e modos dos personagens. Também porque passa o dirigível Graf Zeppelin por Recife. A história do Brasil nos conta que isso se passou pela primeira vez em 22 de maio de 1930, e é este dia que é representado no filme já com as irmãs adultas. E há outras associações que o filme faz que são muito bem elaboradas. Como quando se está tratando de política e há militância pela Presidência de um tal Tibério Vargas (ou Timóteo ou algum outro nome com T), sendo que a população grita por VARGAS. Inevitável associar com Getúlio Vargas (gostando dele ou não). Também é interessante ver a homossexualidade retratada com apresentação dos antigos tratamentos na tentativa de uma cura na intenção de impor uma heteronormatividade – dominante até hoje, aliás, o que é uma pena quando vemos que avançamos pouco nesse sentido; as pessoas ainda morrem e são tratadas como doentes nos dias de hoje apenas por não corresponderem ao padrão.

Mas o ponto alto mesmo do filme, em termos históricos e também de encadeamento, é a associação que se faz com Lampião e Maria Bonita. Temos um grupo de cangaceiros retratados e em determinado momento se une a ele uma mulher. E ali percebemos as sutilezas de construção dessas personalidades e diferentes pontos de vista a depender de qual posição social a pessoa que julga se encontra. Os integrantes da alta sociedade, e mesmo moradores do campo mais inocentes e que acreditam no que pré-julgamentos e conceitos estáticos dizem, acreditam que os cangaceiros são apenas sujeitos cruéis, assassinos deploráveis. A população de baixa renda que sofre com as grandes corporações têm outra visão sobre eles. Vê que eles matam, sim, mas é uma matança seletiva, endereçada a coronéis, policiais e quaisquer outros abusadores de inocentes. O bando rouba, de fato, mas também compartilha, distribui. Nem todos são bons, nem todos são maus, quase todos são os dois.

Isso tudo é ancorado por atuações excelentes. Choro na medida certa, expressões envolventes. Sem contar na caracterização que mostra a passagem do tempo. O elenco infantil muito bem escolhido, tanto pelas interpretações das personagens quanto pela semelhança com as atrizes adultas. As ligações vêm assinadas pelo destino. Vale constar que o filme é adaptado do livro A Costureira e o Cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles, (e já saí do cinema com vontade de ler). O título do livro entrega mais do que esta crítica, que me esforcei para realizar sem spoilers, mas me permito dizer que as irmãs são costureiras e que a arma metralhadora também é chamada de costureira.

Assista e tire suas próprias conclusões.

Veredito da Vigília