Becos da Memória, de Conceição Evaristo | Crítica

A realidade em forma de pedra pontiaguda no peito

“Sonho só alimenta até a hora do almoço, na janta, a gente precisa de ver o sonho acontecer. Tive tanto sonho no almoço de minha vida, na manhã de minha lida, no jantar, eu só tenho a fome, a desesperança” (Becos da Memória, p. 51)

O trecho acima é apenas um, de tantos outros, tão marcantes quanto, que poderíamos destacar da obra Becos da Memória de Conceição Evaristo. A autora mineira que escreve desde a infância, começou tardiamente a ser reconhecida pelo público, com o primeiro livro publicado aos 44 anos, em uma coletânea de poemas lançada pelo coletivo Quilombhoje Literatura, de São Paulo. O segundo livro sairia uma década mais tarde, pago pela própria autora. Com Becos da Memória não foi diferente, escrito no final dos anos 80, a obra só chegou ao público quase vinte anos mais tarde, em 2006. Este ano, a publicação ganhou a terceira edição que por sorte (e amizade) chegou em nossas mãos.

Becos da Memória me tocou do prefácio à última linha. O livro é feito de memórias da realidade na periferia brasileira, pujantes, embora cheias de ternura. O talento de Conceição fica evidente desde o início também, com uma linguagem leve, algo entre o poético e o infantil. A autora narra um cotidiano de pobreza, dor e sofrimento. De gente que vem e vai. De gente que não tem para onde ir. É doloroso, mas lindo. Pesa, mas enche a alma de compaixão.

A favela é o pano de fundo da narrativa composta por diversos relatos breves, que contam as histórias de múltiplos personagens que constituem esse microuniverso. Conhecemos mulheres, homens e crianças. Idosos. Famílias inteiras. Por meio deles, experimentamos a vida vivida, a vida que que não pode ser vivida, a vida que é mais sofrimento do que vida, e a morte. A morte é uma constante nesse cenário, e aprende-se a aceitá-la e seguir em frente, aprende-se também a esperá-la e percebe-se que, às vezes, ela é última esperança.

Veredito da Vigília