Exodus: de onde eu vim não existe mais | Crítica

Um documentário para ser visto e exaltado

Informativo. Despido de preconceitos. Tocante. Entusiasta. Sonhador. Muitos são os adjetivos que podem resumir esse filme, mas nenhum deles capta de todo a essência que é assistí-lo. Ele precisa ser visto para ser compreendido. Até porque trabalha com muitos dados que são difíceis de reproduzir e que precisam ser absorvidos com o filme para concretizarem seus ensinamentos. Ele mescla uma narração precisa na intensa voz de Wagner Moura – facilmente identificável desde o primeiro momento, sem precisar de introdução – com depoimentos de refugiados em diferentes lugares no mundo.

Temos uma moça natural da Síria refugiada no Brasil e lutando para conseguir visto e asilo no Canadá, onde residem três familiares seus. Um natural de Togo refugiado na Alemanha que depois de conseguir seu visto passou a lutar pelos direitos dos refugiados e por melhores condições de vida no processo entre a chegada na Alemanha e a obtenção do visto (atualmente os refugiados ficam aprisionados em alojamentos por anos até obterem resposta). Uma sul-sudanesa ativista política, que conseguiu visto ao casar com um alemão mas seguiu lutando pelos direitos de ir e vir dos refugiados, para que eles possam transitar no país e trabalhar. Uma família de Kachin/Mianmar tendo sua aldeia em local de conflito militar. Uma família saarauí, personificada mais intensamente na matriarca, uma idosa revoltada com a situação em que vivem e que quer voltar ao Saara Ocidental, mas precisa ficar refugiada na Argélia. E um jovem sírio-palestino que fugiu do conflito com seu irmão sendo que ele veio para o Brasil e o irmão para Cuba, mas foi só um passo simplificado para alcançar seu objetivo de partir para a Alemanha, onde atualmente está pedindo asilo, confinado num dos alojamentos.

Os seis núcleos iluminados pelos 105 minutos de filme (que, aliás, passam voando) mostram mundos diferentes unidos pela mesma situação de conflito, horror e a busca por recomeçar. A produção acompanhou suas histórias por dois anos e, assim, mostrou o avanço de seus status e as diferentes possibilidades e limitações que os países ofertam a quem pede asilo. No Brasil e em Cuba, por exemplo, vemos as portas mais abertas a refugiados, concedendo rapidamente o asilo aos que pedem abrigo, possibilitando que eles tenham visto de trabalho e possam estudar. Já na Alemanha, a situação é diferente, e vemos os refugiados confinados em locais afastados aguardando um retorno governamental que leva anos, e pode tomar uma vida inteira. O que parece ser uma tônica comum é que os refugiados dificilmente se integram totalmente à população, tanto pelo preconceito que sofrem quanto pela vivência que os marcou e não os permite ver o mundo de forma branda, calejados pela dor a eles infligida.

O documentário não tenta criar vilões para cada história, nem culpabiliza os conflitos nos países. Fala deles, contextualiza, mas não forma uma imagem negativa sobre um ou outro povo. O que é muito positivo, então vá sem medo. De fato, há lados marcados, mas isso não prejudica em nada. Os refugiados compõem uma unidade dos que querem ter possibilidade de se reerguer e viver em paz. Alguns se colocam mais enfaticamente e exageram na teatralidade, mas tudo é desculpado considerando o que essas pessoas tiveram que passar e ainda precisam enfrentar, porque mesmo que consigam asilo nunca deixarão de ser refugiados. Isso marcou a todos e não poderia ser diferente.

O documentário tem direção assinada por Hank Levine e está em cartaz desde o dia 28 de setembro de 2017. Vá ao cinema e confira por você mesmo esse retrato atual e latente de sociedades interligadas e de luta.

Veredito da Vigília