Streaming é cinema? | Opinião

O serviço de streaming já é um caminho sem volta. A ideia que deu à Netflix um crescimento exponencial em todo o mundo passou a permear as grandes produtoras de TV. E agora vai chegar com tudo na maior empresa de entretenimento do mundo, a Disney. O anúncio do serviço foi feito ainda em agosto e já causou impacto, por muitos fatores. Com um serviço exclusivo, várias das produções da empresa que desaguam direto na programação da Netflix serão colocadas em xeque. Afinal, os conteúdos de Star Wars, Marvel, desenhos e séries originais da Disney são uma parte importante do recheio de qualquer emissora, quem dirá da empresa do Vale do Silício.

Outra grande consequência disso gerou uma espécie de contragolpe da Netflix. Provavelmente prevendo que terá afetada sua parceria com a Marvel (que já proporciona pelo menos seis produções, tais como Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro, Defensores e Justiceiro), ela atacou outra importante fatia do mercado dos quadrinhos, adquirindo a Millarworld, universo criativo do criador Mark Millar, responsável por Kickass, Kingsman, e outras produções importantes do mundo dos quadrinhos contemporâneos. Até então, produções que renderam mais de 4 bilhões em bilheterias de cinema para diferentes empresas. Prova de que os quadrinhos seguem sendo uma das maiores minas de ouro do cinema atual.

É importante destacar, até agora não sabemos ao certo onde isso tudo vai parar, mas não custa fazer um exercício de interpretação para além da forma de distribuição dos produtos de TV e Cinema. Ainda este ano tivemos a encrenca da Netflix no Festival de Cannes, que teve sua obra Okja vaiada, muito mais por ser “cinema que não vai para salas de cinema” do que pela obra em si, é bom deixar claro. Também este ano tivemos a estreia de O Matador, primeiro longa original brasileiro da Netflix e que foi exibido com exclusividade no 45º Festival de Cinema de Gramado. Desta vez, sem vaias, apesar de gerar vários debates durante o evento.

Basicamente o streaming é a nova quebra de paradigmas. Uma jogada lucrativa para uns, mas que é também um baque muito forte para toda uma engrenagem da indústria. Distribuindo de forma direta, temos afetada uma cultura das quais mais gostamos, que é a do cinema. A da experiência de ir até uma sala escura, comprar pipoca, pagar ingresso e imergir numa história. Temos o paralelo evolutivo do que tivemos do rádio para a TV, e do jornal impresso para o digital. Um não acabou com o outro, é verdade, mas pelo menos para o segundo exemplo é uma história que ainda não acabou. Assim como a nova quebra, streaming x cinema clássico. A comodidade de ficar em casa impacta diretamente nos percentuais de se deslocar até o cinema. O que por outro lado, impulsiona cada vez mais os filmes-eventos, que investem pesado em tecnologia, efeitos especiais e experiências que ainda não podem ser reproduzidas com o mesmo apelo debaixo dos nossos telhados.

E com isso, voltamos à Disney. Nos últimos dias, o CEO da Disney, Bob Iger, relatou que Star Wars e Marvel Studios estarão no novo serviço da empresa. Outra novidade é de que teremos o serviço já em 2019, também incluindo os desenhos e obras primas da Pixar. Basicamente o serviço estará recheado com Marvel Studios, LucasFilm, Pixar, com filmes originais, séries, animações e tudo mais, fora os conteúdos de Disney Channels, Disney XD e os clássicos. Fora o streaming, haverá o video-on-demand com as novidades, tais como Toy Story 4, Frozen 2, e a nova versão de Rei Leão, e todas as grandes produções ad infinitum. Pra ter uma ideia, só de conteúdo que já existe, a Disney terá no seu acervo cerca de 500 filmes e mais de 7 mil de episódios de televisão. O que antes era dividido com outros serviços e emissoras de TV, pode se tornar quase que um monopólio (que já existia na questão propriedade intelectual) e agora migra para suas formas de distribuição.

O debate da equação distribuição x mercado x streaming x cinema clássico ainda vai longe. Os costumes estão sendo afetados e as transformações ainda em andamento. Novas páginas serão escritas num futuro bem próximo. A sensação de ir ao cinema ainda parece longe de ser substituída. Na minha modesta opinião, o cinema segue forte e tudo que ele envolve será quase impossível de alcançar. É um programa, um evento realmente, e traz por trás dele uma engrenagem e movimentos industriais, mercadológicos e sociais que engatam em muitas outras rodas que movimentam outras rodas, e assim por diante. E por toda sua história, esperamos que ela evolua com o nosso mundo, sem que o nosso mundo faça com que ele deixe de evoluir, ou que simplesmente seja substituído por telas menores e com experiências não tão ricas. Que as grandes empresas da vida saibam respeitar e valorizar isso tanto quanto a gente.