Entrevista da Vigília: Jéf

Quando o jovem Jeferson Cássio de Souza definiu que ia seguir na vida de músico, ele acabou se desfazendo de uma de suas bandas. Os amigos seguiram outros rumos, e, quase ao mesmo tempo, a vida do rapaz, agora Jéf em carreira solo, virou do dia pra noite. Mas não foi fruto do acaso, ele acreditou no seu trabalho e passou por um filtro de mais de  7 mil bandas, ficando entre o selecionados no Breakout Brasil, reality show de bandas de todo território nacional. Não apenas ficou entre as 12 melhores. Sua banda, formada por vários músicos amigos e como ele mesmo afirma “eu nem tinha banda”, acabou vencendo a edição de 2014 do programa. Passando por cima do jogo criado pela TV, ele catapultou seu primeiro disco e de quebra lançou o segundo, em 2015, já com o selo da Sony e a produção do agora amigo Lucas Silveira (Fresno).

Do interior da pacata Três Coroas (conhecida pelo Brasil pela Canoagem e pelo Templo Budista, mas pelos chegados como a Capital do Mundo) ele passou a figurar grandes palcos de todo o Brasil, dividindo o palco com nomes como Vanguart, Nenhum de Nós, fez até jam session com o Mr. Catra, e marcou presença no SXSW em Austin no Texas. Mas “quase não deu”. Em meio a isso tudo marcou presença também em alguns tributos essenciais da nova geração para bandas como Titãs e Skank. Acabou? Ainda não. Ele vai estrelar um filme independente chamado A Maré, de Marcel Isidoro, e promete para as próximas semanas seu novo EP, mostrando um pouco mais do seu folk rock brasileiro. E para contar tudo isso, ele ainda mostrou toda sua simplicidade visitando a base da Vigília exclusivamente para ceder essa entrevista. Com vocês, o fã de Cavaleiros do Zodíaco (não toque na coleção dele!): Jéf.

Como foi o início de carreira e com que idade a música entrou na tua vida?

Comecei a tocar com 13 anos e já montando a primeira banda (chamada The Trash), junto com meu amigo Alfredo. A gente gostava de cantar e tal, ele me convidou para comprar um baixo. Na época eu nem sabia o que era um baixo (afinal é o que as bandas precisam né?). Quando eu comecei a tocar tocava numas cinco bandas, justamente porque ninguém tinha baixista. Fui saindo de todas. Todo mundo queria tocar guitarra. Em 2003 com a The Trash a gente começou a tocar mais. No ano seguinte conseguimos um baterista e ganhamos um concurso na cidade. Ganhamos um rádio (risos) e trocamos por gravação em um estúdio. No início de tudo fazia aula de baixo e ganhava mesada. A minha mesada ia toda na mensalidade das aulas. Em 2005 mudamos o nome da banda para Vitrô, porque era tenso se chamar de “lixo”. Tocamos até 2013, até eu sair da banda.

E aí começou o Jéf?

Todos estavam se dedicando a outras coisas e começamos a brigar muito. Eu queria fazer muita coisa e o pessoal ficava focando em outras coisas. Comecei a gravar o disco solo sem muita pretensão, só pra colocar a música na internet. Em 2014 tinha fechado um show em um casamento de um amigo (há um ano já) e como a banda não tava tocando, acabei colocando meu nome. Nunca tive criatividade pra criar nome da banda coloquei Jéf mesmo. Aí já tinha material para lançar o disco no mesmo ano e acabei lançando (o primeiro disco Leve) em maio de 2014 e fiz um show na principal festa popular da minha cidade.

Foi o momento que tu definiu de vez para a música?

É, inicialmente a banda tinha feito uma boa reunião e todos iam fazer uma parte. Mas acabou não rolando. Daí veio o Thiago (Thiago Heinrich, músico e produtor) e me falou que tinha um programa de TV que podia inscrever a banda… e eu falei vamos lá, tudo que puder fazer pra divulgar vamos divulgar. Me inscrevi e me chamaram e eu pensei.. “meu deus, o que vou fazer agora, tem que ir pra São Paulo”. Não sabia o que podia acontecer, podia ser um mês ou uma semana. Mas eu nem tinha uma banda. Perguntei pra produção se tinha banda de apoio, e eles falaram que não. Aí liguei pros guris que tocaram comigo no lançamento do meu disco e disse “olha, tem um programa, mas não tem cachê, eu nem sei o que fazer”. E todos eles toparam na hora. A gente foi lá e acabou vencendo. Eu brinco que demorou muito tempo pra acontecer tudo muito rápido. Foram 10 anos tocando com a Vitrô e nunca aconteceu nada e quando eu fui fazer um negócio sozinho, lancei um disco em maio e em setembro já estava assinando com uma gravadora. É muito louco tudo isso.

Jéf conheceu os action figures da Vigília. Em casa ele guarda uma vasta coleção dos Cavaleiros do Zodíaco.

E como foi essa mudança?

A nova banda agregou muito pra mim e fez com que eu repensasse a questão do profissionalismo e de como trabalhar. Começaram a me cobrar, investir em equipamento. Em 10 anos da antiga banda a gente não tinha nada para recordar, nenhum single, nenhuma foto, nenhuma identidade visual. E a nova galera me botou na prensa “compra um equipamento melhor, tu precisa fazer aula de voz, aula de piano”. Aí eu comecei a me preparar mais. E trabalhar e me dedicar ainda mais e colocar tudo como uma empresa. Um outro mundo se abre. Hoje na música tocar e fazer um show é somente 10% de todas as coisas.

E como foi passar um filtro de 7 mil bandas no Breakout Brasil?

A gente foi muito na boa. Eu, o Thiago e os guris fizemos uma reunião dizendo que a gente não vai ganhar o programa, a gente não tem chance, porque não é uma música tão comercial, não é um rostinho bonito, não estávamos nos padrões. Mas vamos aprender com essa oportunidade e mostrar nosso trabalho. Vamos entrar para nos divertir.

E como é que são os bastidores do programa? Cobram muita coisa?

O pessoal queria que a gente brigasse. Mas da nossa parte não houve encenação. A gente tá aqui pra tocar. E outras bandas também, ficamos amigos de várias delas. Tinha uma galera que estava ali pela música, e o programa não era o início e não era o fim, era só o meio. Era só uma parte do caminho, não ia resolver nada. Então nos primeiros dias teve umas ideias de tretar e dar briga. E a gente tinha até um confessionário onde o pessoal forçava a gente pra tentar falar mal um do outro. Mas era entretenimento. Na terceira vez que o pessoal tentou a gente fazer ir para um lado, eu falei na frente das câmeras “Agradeço pelo toque de vocês, mas eu não estou aqui pra isso, estou aqui pra tocar”. Acho que isso nem deve ter ido pro ar.

E teve gente que entrou no jogo né?

Sim e de forma proposital. A produção cobrou que não tava acontecendo nada, briga e tals. Eu falei que não ia fazer isso. Mas outras quiseram. Tem gente que pensa “falem bem, falem mal, mas falem de mim” e eu não sou assim. Quero aparecer pelas coisas boas que eu faço. E no final não rolou isso. Nós e o pessoal da The Outs (banda que foi pra final do programa) estávamos muito juntos e muito felizes. Tanto que no final todos vieram pra cima da gente fizeram um montinho (risos).

O que foi mais importante no programa e como foi a interação com os jurados (Supla, Bianca, Edu K e Lucas Silveira)?

Eu fiquei de cara com o Supla que falou pra uma das gurias das outras bandas que ela tinha que fazer com que todos tivessem vontade de comer ela, que tem que ser sexy. E na outro dia eu falei “ah então pra ser sexy”, daí dei uma dançadinha e o Supla ficou muito puto e falou horrores. Mas naquele episódio a gente tinha imunidade, então virei e lancei um beijinho. A produção toda ficou rindo. A gente até podia sair depois daquilo, mas a gente tava de boa (risos). O Supla não curtiu. Os demais jurados eram muito gente boa.

E o mais legal foi que várias pessoas da produção vinham falar com a gente e nos davam apoio. E muito desse apoio nos motivou ainda mais. Chegamos na final e disse foda-se agora vou tocar e era isso. E na segunda música da final ficou um negócio tão forte que parece que desceu um negócio por lá. E a plateia que tava lá já tava meio de cara, porque ficaram muito tempo esperando as gravações. E eles ficavam gritando e pedindo coisas pra comer.. aí eu pensei “bah, a gente vai tocar pra essa plateia na final”. Fiquei assustado. Mas aí cheguei no microfone e perguntei “Vocês tão com fome? Eu também, então a gente vai tocar umas músicas aqui e espero que possam interagir com a gente. Todo mundo vai tocar rápido pra gente ir comer”. E aí a galera caiu na risada, o que ajudou bastante. E o final foi tão emocionante que foi decisivo pra volta quando decidi largar a fábrica (ele trabalhava na fábrica de calçados do cunhado, em Três Coroas).

E a posterior gravação do disco, com a Sony e produção do Lucas?

Bah foi legal. Assinamos um contrato dessa grossura e antes disso já teve um contrato com o programa que era de que se algo vazasse a multa era de um milhão de dólares. Mas gravamos em janeiro, e o lançamento foi em julho. Mas com o contrato alguns lugares eram vetados pra gente em função das marcas envolvidas. O contrato mudou tudo, o que era diversão virou a minha vida. A música virou um negócio. E tem que equilibrar, porque eu sempre quero passar a verdade e ser de coração, se não nem faço. Preciso fazer o que eu acredito.

Aí gravamos o novo disco, fiz uma parceria com o Lucas, que é um cara muito gente boa. E lançamos Rema e Acredita, com clipe e tudo. E logo apareceu um cara com uma tatuagem da música no peito. E desde lá já apareceram mais de 20 tatuagens com algumas letras da minha música. É uma coisa muito louca.

E o SXSW? Como surgiu?

Isso também foi por um acaso. Um amigo meu falou que dava pra se inscrever e a gente combinou. Se um de nós fosse selecionado, o outro acompanharia. Aí eu fui selecionado e bateu o pavor. Bah, e agora? Tive problemas e não consegui tirar visto americano para ir para o Texas, mas houve intervenção de um político de lá e tive que fazer tudo na correria. Em uma semana tive que tirar o visto e comprar as passagens e reservar hotel de sábado para segunda. E ainda tive que conseguir um violão emprestado. Fui sozinho, o amigo acabou não me acompanhando e foi uma correria. Nunca tinha viajado pra tão longe e acabei não me programando muito. Sequer levei carregador da Go-Pro que tinha levado. Mas foi muito massa. Toquei num espaço para a América Latina. E o SXSW é muito louco porque numa porta tá tocando uma banda de heavy metal do Japão e na outra tocando cumbia. E daí pensei, toco folk, no país do folk. Então fiquei em casa e todo mundo participou do show como se estivesse tocando aqui. Acabei pesquisando alguns registros e fui citado em um site com os melhores momentos da SXSW (que você vê aqui). No dia do show um cara do México veio falar comigo e conhecia meu trabalho desde quando comecei a botar as músicas no Soundcloud. E ele pediu para tirar uma foto comigo e eu respondi “Cara, eu quero tirar uma foto contigo”.

E tu fez parte de uma coletânea com músicas de Titãs e Skank, com foi participar dessa iniciativa?

Muito legal, participar de um negócio com bandas que eu gosto. E acabei sendo citado como uma das versões favoritas por muitos críticos. Muita gente torce o nariz para essas coisas, mas não tenho problemas com isso. Gosto muito do Skank e fiz o meu pop dentro do pop deles. Fiquei bem feliz com o resultado. Fui convidado e virou um disco virtual muito legal. Dá uma exposição muito boa. Geralmente nesse meio a galera gosta de vir pagar de cult e torce o nariz para o que é pop. Não tenho medo de ser pop, mas no nosso meio tem muito isso de querer ser alternativo. O cotidiano de hoje é tão pesado. Um dos melhores elogios que eu recebi foi de que minhas músicas pareciam um abraço. E isso foi demais, porque quem não gosta de um abraço? Ainda mais nesse tempo que tá todo mundo se odiando e buscando motivo pra se odiar, na política, no futebol e tudo mais. Os tempos tão bem difíceis e eu não quero isso pra mim. Se eu puder abraçar alguém e facilitar a vida de alguém com uma música, tá muito bom pra mim.

Coletânea Skank

Coletânea Titãs 

Quem tu escuta da nova geração do rock e pop?

Gosto muito do Tiago Iorc, as gurias da Anavitória, Capela, The Outs, Ana Muller.

Você lançou os discos “Leve” e depois “Interior”. O que vem agora na carreira?

Vou lançar nas próximas semanas um novo EP com quatro músicas e depois, já que o contrato com a Sony encerrou e optamos por voltar à cena independente, organizar o novo disco pelo Catarse.

E tu já podes falar quais são as músicas?

Sim, claro. Os títulos são “Mundo a dois”, “Melhor de nós”, “Menina” e “Onde Foi”.

E mais alguma coisa por vir?

Ah sim, quase ia esquecendo. Eu vou estar em um filme.

Como protagonista?

Sim, é muito legal. É um filme do Marcel Isidoro, lá de São Paulo. Ele me conheceu e sempre falava que ia me convidar. Eu sempre respondia “Claro, sim”, mas nunca imaginava que ia ser verdade. Então no ano passado fui pra São Paulo, passei duas semanas por lá e gravamos o filme, que vai se chamar “Amaré”. É tipo um roadmovie musical. Ainda não tem data para lançar. Contracenei com uma atriz profissional, a Tassia Cabanas e foi muito legal. O filme foi todo gravado com Iphone.

Tá na mão o trailer!

E agora vamos para as nerdices, num ping-pong:

Quais tuas séries favoritas?

Game Of Thrones, Breaking Bad, Arrow, Prison Break, How I Met Your Mother e Stranger Things são as que me vem na cabeça agora.

O que mais gosta nelas?

Acho que é a construção dos personagens, as motivações. São essas coisas que percebo e que tento passar também nas minhas músicas.

Quadrinhos? Algum preferido? Personagem?

Gosto muito do Capitão América e do Arqueiro Verde, porque fiquei muito fã de Arrow.

E um filme?

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Donnie Darko.

Star Wars ou Star Trek?

Star Wars.

Marvel ou DC?

Marvel me marcou mais.

Beatles ou Rolling Stones?

Os Beatles, claro.

E fique ligado. O Jéf vai participar de um especial do Torre de Vigilância!