Glow: girlpower, mas nem tanto

Escrever sobre Glow traz diferentes sensações. Longe de ser uma revolução na representatividade e no empoderamento feminino, ela tem bons momentos. Pode ter seu olhar crítico, mas é voltada para a comédia, por isso abusa de alguns estereótipos (na verdade quase todos). Apesar de tudo, considere um bom entretenimento para os momentos de “não sei o que olhar hoje na Netflix”.

Criada por Liz Flahive, responsável por Homeland e Nurse Jackie, e Carly Mensch, de Orange Is The New Black, a série mostra as agruras de uma produção de TV que escolhe, nos anos 80, que uma competição de Wrestling (luta livre) entre mulheres pode ser um grande atrativo para a audiência americana. Portanto as Gorgeous Ladies Of Wrestling (daí a sigla Glow) começam a ser selecionadas por um diretor pegado na cocaína, Sam Sylvia (Marc Maron) e um investidor filhinho de papai, tão cheirado quanto, Bash (Chris Lowell). Aliás, os dois estão ótimos na pele dos estereotipados anos 80. São de Marc Maron os melhores momentos da série. Importante: a Glow realmente foi uma empresa de entretenimento e TV que existiu nos anos 80, falindo nos anos 90 e voltando em meados dos anos 2000. Chegou a ser transmitida pelo SBT.

Alison Brie é Ruth, mas no ringue se transforma na russa Zoya

No entanto, estamos falando de uma série com mulheres. Muitas mulheres, não é mesmo? Pois é, aqui talvez tenhamos um ponto fraco. Apesar de Alison Brie fazer bem o papel de mulher indefinida, que está procurando saber quem ela é, no papel de Ruth, uma atriz frustrada, essa indefinição parece ter colado na própria personagem, faltou alguma coisa. Como última chance de “dar certo” na carreira, ela aceita fazer parte do cast de Glow, sem ter qualquer ideia do que pode acontecer. Na trama, ela trai sua melhor amiga, a bela Debbie (Betty Gilpin) que recentemente largou um papel em uma novela para cuidar do marido e do filho (até isso é “retrô”, não é mesmo?). A traição põe um ponto final na amizade. Mas elas vão se reencontrar no ringue. Debbie por sua vez é outro estereótipo da mulher americana. Loira, linda e “dona de casa”.

A pitada anos 80 (tudo é anos 80 ultimamente) nos traz alguns formatos clichês, mas para os saudosistas como eu, isso também é um ponto certeiro na série. Trilha sonora e ambientação que parecem ter saído direto da época em que assistimos Miami Vice, Alf – o ETeimoso, Super Vicky, Super Máquina, entre outros. As piadas acabam girando em torno do mundo feminino e chamando atenção, como no diálogo: “Quer ser feminista, mas traiu a melhor amiga com o marido dela”. A parte legal é que quando as meninas se unem, elas fazem acontecer. Mesmo que isso leve elas a abrir um “Bikini Car Wash” (mais uma piadela oitentista).

Sam Sylvia (Marc Maron) é um dos pontos altos

Glow acerta pelas piadas pra lá de estereotipadas. Todas elas podem te fazer pensar um pouquinho no senso comum e no politicamente correto. Elas aparecem no feminismo, no racismo, nas relações humanas e outras. Mas, verdadeiramente, o ponto alto e as melhores frases são de Sam Sylvia (Marc Maron). O diretor frustrado sonha que o sucesso de Glow possa lhe render o financiamento de um filme ao qual ele tanto deseja, intitulado “Mães e Amantes”. Só o título já é um absurdo. Segundo Sam, o filme é um “drama semi-autobiográfico psicossexual com viagem no tempo”. E a melhor parte é quando ele descobre que essa ideia está em cartaz, sem spoiler aqui, mas tem mais uma homenagem aos filmes dos anos 80.

Depois de vários absurdos, clássicos de uma comédia, uma pitada de drama e escolhas até bem chocantes (vai ter aquele episódio que no final você não vai achar assim tão engraçado), Glow encerra com uma sequência de plot twist que não empolga muito e não deixa no ar se teremos ou não uma nova temporada. Fico na dúvida até mesmo se seria necessário. Talvez sim, pra ver mais tentativas frustradas do diretor Sam Sylvia.

 

Veredito da Vigília
  • Kassia Flores Teixeira

    Me diverti assistindo, mas esperava mais da série, principalmente porque li que a produção é comandada apenas por mulheres.

    • Robson Francisco Nunes

      Pois é, compartilho deste sentimento também. O melhor personagem acaba sendo o único homem (pelo menos é o mais engraçado). 🙁